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Hora do Rush


O sol já estava em cima de minha cabeça, horário de pique trânsito asfalto sinais buzinas. O terno e o sapato faziam parte da minha rotina, assim como os relatórios a secretária  o chefe a Regina. Das oito as seis eu era uma máquina de processos penosos servidor de chazinhos amigo falso. Quando era dispensado de minhas obrigações, sempre me dirigia a um bar que ficava na beira do asfalto. Era um bar que servia café. Eu pedi uma cerveja e a moça da mesa ao lado pediu um café. Ela pediu tão baixinho o café que o garçom lhe perguntou “o que é?” um bocado de vezes, e ela não parecia se importar em repetir quantas vezes fosse possível que  queria um café. Então, notei que a moça não queria aumentar teu tom de voz para pedir um café. Uma criança interessante, mesmo já sendo uma mulher. Enrolava a barra da saia como quem não tem o que fazer e não sabe o que quer. De tanto a observar minha cerveja virara chá, e tive de pedir outra para o mesmo garçom, que fora buscar o café da mulher. Quando ele voltou, viera com ele, numa bandeja prata fosca, minha cerveja e o café. Ele me servira primeiro e só levou depois o café. Fiquei observando a movimentação, munido de curiosidade e tédio as pessoas e a única mesa do bar que estava provida de uma xícara de café. Aquela moça carregava uma bolsa laranja e um olhar em banho Maria. Suas mãos não paravam de enrolar a saia tingida. Eu sei que tinha algo de errado com aquela menina, porque o café que pedira ao garçom ainda estava na mesinha. Suas mãos continuavam na saia enquanto seus olhos se perdiam. Procurava o que ela estava a olhar naquela avenida sombria. Vi gente descer e subir e gatos transando enquanto os cachorros latiam. Ela estava maquiada, com roupa de casa e chinelo no pé. Parecia que estava se preparando para ir ao Santha Fé. Mas não achei nada demais na longa avenida. E a menina perdida, do nada parecia refletir sobre a tua vida. Sorria ao meio dum chorinho, cor do raiar do dia, mas seus olhos de repente, seus olhos saíram do banho Maria. Sua saia amassada fora liberta das mãos e o café, intacto e frio ali, permanecia. Eu sei que tem algo estranho com aquela menina. Mas ela sorrira pra mim, e eu desconcertado virei o rosto pro cardápio. Mas curioso não aguentei e fitei-a de volta e teu rosto já estava a escrever um prefácio. Diante de todos pegara tua bolsa esquisita, e a colocara em teu colo, mas depois achou melhor a dispor na mesinha. Pediu bem baixinho pra outro garçom, uma cerveja, daquelas que é iguaria. Tomou de vagar, sem pressa, e tudo, tudo eu via. Ao terminar, tirou de sua bolsa a carteira e o cartão, mas decidiu pagar em dinheiro a conta da mesinha. Sentada ela continuou a observar as pessoas ricas, os malandros da rua, as tias da praça, as moças vadias. Fechou os olhos e de repente eu vi que o vermelho surgia. Os figurantes assustados correram seguindo a avenida, e eu paralisado e vermelho continuei sentado enquanto tudo acontecia. Deu-lhe um tiro na mente cansada, a pobre menina.




Alegoria dos significantes

Angela Batista, 19. Tenho todos os anos do mundo, ao qual não sinto necessidade de revelar. Aprecio sorrir para um gato na rua, molhar-me junto com meus cadernos na chuva, rir quando é para chorar e sofrer quando tenho que sofrer. A arbitrariedade da vida me fascina, assim como o cheiro dos pés de laranjeiras. Sem rodeios, sem discurso poético, seja bem vindo, as minhas alegorias.

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