valsa
Aparecestes para mim, tão buarquizado que não resisti quando me olhastes pela primeira vez, e assim eu deixei que invadisses minha morada e que ali se instalasse junto com meus vestidos. Era só meu, o cômodo cedido em que moro desde os dezenove, mas tu chegastes tão adoniranizado que não hesitei em juntar teu chinelo junto ao meu de correia azul. Fui aos poucos mudando o aspecto das paredes que antes mofavam pela falta de esmero por minha parte, e senti vergonha de te receber em tal estado, e assim, pintei tudo de uma nota só para não causar tão má impressão ao camarada que ao longe sussurrava algo em francês.
Em pouco dias aquele cômodo adquirira um puxadinho no fundo, para suportar todas as muambas que trouxera o viajante caetanizado, mas não me importei em quebrar minhas unhas ao manusear os tijolos para a construção, mesmo que a dor fosse latejante; porém não há dor que vença os descansos dos meus olhos ao ver-te dormir. Para dormires, dividi contigo meus lençóis amarrotados e meu colchão que muitos anos permanecera com o lado esquerdo a preencher, e durante muitas noites ficamos acordados reclamando e suando de verão ou de amor, mas isso não vem em questão.
Meses se passaram e suas camisas já se encontraram misturadas com minhas saias, a cachaça se encontrara em cima da geladeira, nossas toalhas se cruzavam cruas. Nossos pés, já namoravam um tango argentino; nossas bocas, se cortejavam; suas mãos e as minhas e nossos corações sambavam uma mistura de todas as poesias que lera enquanto olhava-me ao som dos sabiás.
Em um ano tu me buarquizou, me adoniranizou e me caetanizou, e eu, como uma boa drummondiana que sou, permiti.
Recortes de mulher
Declaro-vos amor, mulheres de minha vida, cuja as mãos fortes e delicadas construíram o meu espaço. Declaro-te amor, operária. Declaro-te amor, empregada doméstica. Declaro-te amor, professora. Declaro-vos amor, secretárias, engenheiras, mulheres de casa, artesãs. Se Pablo Neruda não as inventou, é porque a história prometeu uma poesia única e eterna, que fosse recitada todos os dias em forma de pernas, seios, bocas e cabelos e que em cada passo dado o soar das calças e o bater dos saltos ecoassem um soneto de amor.
Declaro amor as mulheres que nunca conheci a face que há muito tempo, com seus jalecos cinzas, lutaram como leões pela liberdade e igualdade de todas as flores que brotaram e que ainda iriam desabrochar. Declaro amor as musas poéticas. Declaro amor às mulheres não reconhecidas em seus respectivos trabalhos. Declaro amor às rosas agredidas. Declaro amor às heroínas que se alimentam do amor dos filhos enquanto os filhos se alimentam com o pouco de arroz que restou. Declaro amor à irmã que ensinou ao diamante da casa seus primeiros passos. Declaro amor à mãe que nunca dorme enquanto não ouve o barulho da chave da prole abrindo a porta depois de uma noite de regalias. Declaro amor as mulheres da vida e aos que eram homens e que hoje são mulheres e que buscam respeito por tal decisão.
São tantas mulheres, como diz Martinho da Vila;
cabeças e desequilibradas, mulheres confusas, de guerra e de paz que eu passaria milênios descrevendo as cores do mundo. Deixa disso, mulher! Nenhuma data é necessária para recordarmos vossa, pois todos nós somos mulheres. Nós respiramos a mulher. Nós vivemos a mulher. Nós sambamos a mulher. Nós cantamos a mulher. Existimos pela mulher.
Eu sou mulher.
incerteza absoluta
Talvez eu passe tempo demais esperando, imaginando ou torcendo por estrelas cadentes. Talvez eu perca muito tempo imaginando sinopses para minha vida, ou escolhendo a trilha sonora perfeita para o beijo na chuva. Talvez eu tenha medo de me perder pelas veredas dos vales e nunca mais me achar por completa, ou quem sabe, eu tenha mais medo ainda de cogitar a ideia de não existir um vale. São incertezas que criamos e depositamos na caixa da memória. São medos que criamos para não embarcarmos no trem das dez. Talvez extinção do homem ocorra pelo medo de arriscar as penas do cocar. Talvez o homem decrete óbito pelo medo de atingir os céus, ou, quem sabe, de tocar a terra com a intensidade da cólera divina. Quem sabe... O que eu acho, é que talvez, o homem morra com medo do amor. Ou do amar.
Alegoria dos significantes
Angela Batista, 19.
Tenho todos os anos do mundo, ao qual não sinto necessidade de revelar. Aprecio sorrir para um gato na rua, molhar-me junto com meus cadernos na chuva, rir quando é para chorar e sofrer quando tenho que sofrer. A arbitrariedade da vida me fascina, assim como o cheiro dos pés de laranjeiras. Sem rodeios, sem discurso poético, seja bem vindo, as minhas alegorias.
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