(des)graça humana
Meu Deus, estou me apaixonando, e não sei se isso é bom. Quando paro para pensar em meu coração, que balanças quando enxerga teu rosto de longe, eu tenho medo. Medo de sentir o que eu sinto. Medo de cair na realidade. Meu Deus, estou me apaixonando e tenho medo disso. Tenho medo de não saber se alguém já sentiu o que eu sinto, se já cheirou o que eu cheirei. Se já gritou o meu grito. Se já chorou o meu discurso.
Meu Deus, estou apaixonada pelo demônio, mas é o (meu) demônio que corrói o meu vestido, o meu batom, os meus sapatos. Estou apaixonada pelo homem que me faz sentir o desespero da gritaria desse sentimento absurdamente humano. Deus, isso é errado. Não, isso é incerto. Mas isso me deixa feliz, mesmo que no campo da incerteza não surta nem uma rosa. Talvez nasça algum broto. Talvez eu continue nessa estrada, para saber onde termina o horizonte, mas enfim.
Deus meu, eu me apaixonei.
Bicho bobo
O ser humano é um bicho bobo por ter medo da sinceridade. Ela é um animalzinho que vive debaixo do fogão, debaixo da cama, do armário, do lençol... Sempre com a coleira em volta do pescoço para passear. Para ser amada. Para ser cuidada. Porém, muitas das vezes, o bicho bobo do homem não a alimenta com todos os cuidados necessários, e ela, animalzinho fraco que é, acaba por ir morar no céu dos passarinhos.
Depois, sentimental como é o bicho bobo do homem, chora dias e passa noites em claro remoendo todo o remorso que corrói seu coração, e no teu peito, com uma brasa de boi, está marcado a frase que perpetuará para sempre em sua mente: "Eu poderia ter sido verdadeiro.". Porém, não foi. E agora, além de enterrar a sinceridade, terás de enterrar uma parte de si, que equivale a outro bicho bobo que poderia ter sobrevivido, se tivesses tu, levado a sinceridade para passear.
Sonho estético de linguística geral
Tive uns sonhos estranhos durante
um bom tempo de minha vida, nos quais não entendia muito bem, porém, depois de
certas revelações acerca desses sonhos, eu criei uma nova perspectiva de vida.
Eu não sabia o que eles
significavam para mim. Não sabia como entendê-los, como decifrá-los, e isso
queimava a minha mente todas as vezes que eu pensava no mesmo. Fazia dias que
eu não me concentrava, nem desfrutava do meu café da manhã verde, nem possuía vontade
de ler minha coluna favorita de crônicas do jornal que eu adquiria na padaria,
junto com o meu ritualístico café quente. Mas um dia, um dia que eu lembro como
se fosse a três horas atrás, eu decidi tomar uma atitude, para que minhas
noites sonolentas e ociosas voltassem com toda a força, pois tudo o que eu
queria, era deleitar em minha cama e imaginar o vazio e os pisca-pisca que a
minha mente construía, sempre antes de cair em sono profundo. Porém, sem
rodeios e sem rebuscamento, sinto a necessidade de compartilhar esse fato que
mudou a minha existência, a minha essência e a minha real função nessa massa
dura que eu denomino de Terra.
Enquanto eu esperava o ônibus de
todos os desastrosos dias, passou por mim uma moça, que inclusive era muito
bela, e a mesma pronunciou uma frase muito distinta para alguém, que estava do
outro lado do celular: "A linguagem
é uma atividade humana.". A linguagem é uma atividade humana? Que
atividade é essa, pensei rapidamente, seguido de um palavrão. Eu nunca vi em
nenhum programa de televisão coisas sobre essa atividade, e em todas as
academias que frequentei, nunca soube que existia um exercício físico que se
chamava linguagem. E essa frase começou a me gerar tantas dúvidas, dúvidas
cruéis acerca do que era linguagem. Cheguei em casa exausto, louco para dormir,
mas antes, eu necessitava acender meu último cigarro da carteira (outro
ritual), para dormir tranquilamente. Quando deitei-me na cama, dei um sorriso
sarcástico e frio, pensando comigo mesmo de que eu não necessito dessa tal de linguagem.
Os sonhos começaram. Um homem, meio
desgastado do tempo, me dizia umas palavras bem claras. Da sua boca saía
discursos acerca da história da mãe da linguagem, e da língua. Creio que essa
mãe se chame Linguística, pois a mesma é a ciência que investiga os fenômenos
da linguagem e que constitui um sistema de signos, que convencionam a nossa
comunicação, e que dentro dela, ocorre os variados modos de fala, ou seja, as
variações linguísticas. Soube que o termo Linguística foi empregado pela
primeira vez em meados do século XIX. Esse homem, de cabelos grisalhos e
de grande bigode, falou-me que o estudo da famigerada linguagem não era
recente, e que há muito tempo atrás, mais do que eu possa imaginar, certos
estudiosos já a tinha como objeto de estudo, ao lado da língua. Nesse sonho,
soube que a linguagem é uma atividade ampla, se realiza através da linguagem
verbal e não verbal e que a carregamos desde sempre conosco, ou seja, a senhora
linguagem é internalizada a nós. Interna a mim? Que estranho, mas faz sentido,
já que eu sou um ser histórico, e que a linguagem é iminente a mim, e que sem a
mesma, eu não existiria, nem o outro, nem você. A linguagem abrange
todas as manifestações humanas, é criadora, ela cobre o mundo, o deixa quente e
faz funcionar como um cobertor elétrico. Ela me torna um ser falante, um ser
dotado de discursos já proferidos antes por alguém, ela permite minha
existência, me apropria, me concede consciência, exterioriza, concretiza e
materializa minhas ideias, contagia-me com sua essência que é o falar com o
outro. Depois de eu me apropriar de todas essas informações, o senhor
abraçou-me e sussurrou em meus ouvidos algumas palavras, nas quais não lembro
no momento. Acordei confuso, porém, extasiado.
Na décima quinta noite de uma doce
angústia filosófica, o senhor de bigode voltou a me visitar, e agora,
acompanhado de um companheiro fumante de grandes óculos. Nessa noite, o
convidado para minha festa mental falou mais que o bigodudo, porém, meu cérebro
estava sedento de mais informações, e os dois senhores, mataram minha sede.
Minha língua estava seca, e eles molharam-na. Hoje eu soube uma nova concepção
de língua, diferentemente da ideia que eu possuía de
que língua servia somente para lamber, beijar, mordê-la acidentalmente.
Descobri outra língua, e essa, é uma máquina de discursos constituída de uma
técnica histórica convencionada, que se permite identificar em qual comunidade
histórica está inserido um determinado sujeito e que também, a doce língua, constitui
um sistema de regras que organiza as comunidades para que ocorra a comunicação
e a tua compreensão. A língua é a língua portuguesa, francesa,
espanhola, italiana, alemã, inglesa, guarani... Ah língua, língua minha. Tantas
particularidades sua que eu desconhecia... Como nunca havia passado em minha
mente, que tu és um produto social? Como eu nunca tinha pensado antes, que
desde cedo eu já procurava dominar esse bichinho que eu carrego dentro de mim?
Assim como um garotinho, que desde pequenino já sabe produzir sequencias
gramaticais de sua língua. Pensando melhor, agora eu compreendo o sentido da
linguagem.
Eu procurei uma senhora, que possui
um dom bem distinto e fabuloso, e acreditei que ela daria uma resposta para
essas minhas viagens psicodélicas. Contei à ela todos esses sonhos, ou debates
filosóficos. Contei para ela dos senhores bigodudos, da língua, da linguagem,
da minha relação agridoce com essas concepções. E ela, sempre muito curiosa,
queria saber mais e mais. Contei à ela que nas últimas invasões de meu sono, os
senhores debateram acerca da fala. Eu falo, tu falas, ele fala. Através de
minha fala eu realizo concretamente a produção da língua, ou seja, a minha
(tua) fala é a produção oral da minha língua, de outras línguas. Enquanto os
senhores conversavam, eu ouvi que a fala é individual, social e carregada de
ideologias, a partir do olhar particular de uma determinada pessoa. Através
dela, os indivíduos escolherão elementos que lhes serão propícios da língua
para se expressarem, atendendo a necessidade de cada um de acordo com a
situação em que o falante está inserido, ou grupo social, ou de acordo com suas
emoções. Através desse debate entre os dois senhores, compreendi que dentro da
língua existe uma enorme diversidade de maneiras de falar, ou seja, diversos
níveis de fala, que nesse contexto, eu considero a validade das variações
linguísticas, que fazem parte dessa esfera constituinte da linguagem. As
variações acontecem de acordo com a faixa etária, região, sexo, nível social e
constituem diferenças na maneira de realizar a língua, seja na oralidade, seja
na escrita. Eu costumo falar sem preocupação
gramaticais na maioria do tempo, mas, quando assumo minha função de
funcionário público, eu preciso falar o mais correto possível. Quando estou em
minha casa, eu digo minhas gírias, o meu a
gente vai viaja, to na broca, comprei uns
livro. Eu sinto essa liberdade quando estou em um ambiente mais
descontraído. Na empresa, costumo dizer, nós vamos partir de viajem, estou com
fome, comprei uns livros. Eu possuo a capacidade de moldar a língua dependendo
da ocasião que estou, e isso é fantástico...
Enquanto eu filosofava sobre a
linguagem e seus aspectos, os dois senhores sorriam para mim. Um deles caminhou
em minha direção e disse em meus ouvidos: você
está pronto. Pronto para que eu perguntei, porém não obtive resposta. O
velho de grandes óculos me abraçou como quem abraça um filho, e me disse que eu
sou o fruto da linguagem, e depois de muito tempo, de várias noites de sono
compartilhadas, eles disseram-me seus nomes: O senhor de grande bigode se
chamava Ferdinand Saussure, e o senhor simpático fumante de grandes óculos, se
chamava Mikahil Bakhtin. Isso era uma despedida? Eu não estava pronto para me
despedir, eu queria saber mais e mais, pois minha alma estava viciada nesse
saber. Mas eu não podia impedi-los de partir. Enquanto eu me lamentava, surgiu
um grande pássaro dourado repleto de palavras, de signos, de ideologias em suas
asas, e levou os dois visitantes da minha mente para um mundo repleto de
discursos, no qual um dia eu hei de morar.
A velha vidente, ouvindo meu relato
ficou extasiada, como se já soubesse o que dizer para mim. Rápida, ela jogou
umas cartas, acendeu umas velas e leu minha mão e disse-me que cada um possui
um dom. O meu, ela disse, é de prever o futuro. De uns, é salvar vidas, de
outro é ensinar a ser mais humano. Não sei explicar como esses dois teóricos da
linguística foram parar em sua mente, mas sei que eles construíram um mundo de
ideologias e de sentido dentro de ti. Você, meu jovem, seguirá, cedo ou tarde
tudo o que eles te ensinaram. Você foi escolhido para dominar esse dom, que é o
dom de ensinar linguística.
Sem rodeios, hoje sou um homem que
descobri o caminho de casa novamente. Tenho como vizinhos Saussure, Bakhtin e
tantos outros companheiros de Linguística. Hoje sou feliz ensinando pessoas,
hoje sou feliz trabalhando com a educação. Depois de quinze anos que esses
sonhos aconteceram, eu tenho uma caixa de 20 anos de conhecimento, de amizade,
de relação de amor. Hoje, com todos os anos do mundo, eu descobri meu sentido
no mundo. Eu sou um linguista.
pluf
Se eu tivesse um peixinho, o abraçaria como o mar. Cantaria para ele como quem serenata os passarinhos. Esquentaria a cama para não morrer de frio. Faria café bem cedinho, para acordá-lo com o cheiro de vida.
Se eu tivesse um peixinho, lhe daria um aquário do tamanho do nada, já que o nada equivale a tudo, e o tudo, também pode se proporcionar ao nada.
Se eu tivesse um peixinho, sussurraria em seu ouvidinho, coisas que carrego no peito, aos quais fico vermelha ao cogitar a ideia de exteriorizar sobre o frio que dá em minha barriga. Se eu tivesse um peixinho o acordaria com um beijo de bom dia. Passaria o m(s)eu xadrez favorito, só para mostrar a vizinhança que possuo o animalzinho mais belo. O que é o belo para você? Para mim, a resposta seria o meu platônico peixinho, que deve estar a procura, do aquário que tenho preparado desde o momento em que a vida me fez despencar da mais alta arvore do campo.
Uma data do ano
Eu não preciso de um dia do ano para comemorar a minha cor. Eu não preciso de uma data específica para relembrar a humanidade, das atrocidades nas quais fizeram com vários povos de minha cor. O fato já grita por si, a história não permitirá que o fato seja apagado. A minha própria existência não deixará que esse fato seja esquecido, porque em minhas veias perpassa sangue de reis, de rainhas. No meu sangue está miscigenado a história de Luther King, Malcon X, Zumbi dos Palmares. Tia Eva.
Em todo o meu corpo, em cada grão de melanina da minha pele, a história de meus antepassados escravizados eu carrego pelas ruas de minha cidade. Eu não necessito de um dia para relembrar quem eu sou. Eu não necessito de um dia para bater no peito e dizer que me orgulho de ter a cor da terra que frutifica. Eu faço isso todos os dias. Minha alma sabe e reconhece esse valor de cor azul anil.
Eu defendo minhas ideias como uma leoa que defende sua prole. A igualdade começa a partir do momento em que não se existe um dia para cada etnia. Nós não precisamos de dia do índio, dia do branco, dia do amarelo, dia do negro. Se somos todos filhos do mesmo pai, se somos todos irmãos, se nascemos da mesma terra e dessa terra voltaremos para virarmos pó, qual a necessidade de destacar um dia para uma raça? Um dia a mais ou um dia a menos não irá amenizar os estralos dos chicotes, não apagará as lágrimas das mães ao serem separadas de seus filhos. Um dia no ano não apagará da memória da história os cabelos raspados para nossos irmãos não se reconhecerem entre si, nem nos fará esquecer de muitos irmãos que morreram durante longas viagens para viverem em condições animalescas. Um dia a mais ou um dia a menos não limpará o sangue vivo e de cheiro forte do tronco. Nem aliviará a culpa perante a história.
As fatalidades de nossos irmãos nunca serão guardadas em uma gaveta para ser esquecidas. Não se depender de mim. Porém, em meu corpo se manifesta a roda de capoeira, os sorrisos das negras dançando, sensualizando com seus vestidos de algodão, a partir do simples gesto de erguer a barra da saia com suas mãos para não pisarem nas mesmas. Como isso seduzia os sinhô que observava da janela do casarão... Em meu corpo se manifesta as mãos ágeis que preparavam o almoço para a senzala. Feião preto, resto de carnes. Nossa famosa feijoada. Em meu corpo se manifesta a força dos homens, a coragem de reis, a honra semelhante a dos gregos. Eu sou o negro, o branco, o mulato, o amarelo, o indígena. Eu sou a história. Eu sou humana, e não necessito do 20 de novembro, porque todos os dias, eu sou 20 de novembro.
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“Eu te amei muito. Nunca disse, como você também não disse, mas acho que você soube. Pena que as grandes e as cucas confusas não saibam amar. Pena também que a gente se envergonhe de dizer, a gente não devia ter vergonha do que é bonito. Penso sempre que um dia a gente vai se encontrar de novo, e que então tudo vai ser mais claro, que não vai mais haver medo nem coisas falsas. Há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e voltei e tornei a fugir. São coisas difíceis de serem contadas, mais difíceis talvez de serem compreendidas — se um dia a gente se encontrar de novo, em amor, eu direi delas, caso contrário não será preciso. Essas coisas não pedem resposta nem ressonância alguma em você: eu só queria que você soubesse do muito amor e ternura que eu tinha — e tenho — pra você. Acho que é bom a gente saber que existe desse jeito em alguém, como você existe em mim.”
Caio Fernando Abreu
Filtro
Se eu gostasse do café quente, preparado pelas mãos da preta velha, viveria com o gosto amargo da vida no canto da boca. Talvez, pintaria um bigode branco a partir da miscigenação de sabores no lábio superior de meus lábios, mas creio que o lábio superior de meus lábios prefeririam somente café.
Como seria se eu gostasse de café?
Noites em claro passaria tentando enxergar estrelas no escuro, ou até então me atentaria para os trabalhos acumulados no qual tanto procrastino para iniciar. Acredito que se meu paladar adquirisse o gosto pelo café, meu espírito ficaria dependente do cheiro, do aroma e do sabor do campo bom.
Pena que não gosto de café.
O mofo das flores
Meu único medo é não conseguir cumprir com meus compromissos
De deixar o vaso de flores secar
De não recolher as correspondências antes da chuva
Ou de permanecer na calada da noite calada.
Meu único medo é não ter um sorriso para mim
De não colher um abraço quente na noite torrencial
De não retirar de cima da cama os vestígios de tua presença
Ou de observar pela janelas várias mãos cruzadas, enquanto a minha
Permanece ao vento
Meu único medo é ter medo de um dia
Não muito distante, nem muito próximo, não achar as pegadas que procuro.
De me perder no vazio do tempo
De dormir todas as madrugadas nesta cama vazia
Ou de passar calor nesse solitário buraco que é viver.
Meu único medo se define
Em pensar que daqui uns dias,
Quem eu pensei que era meu, não me pertence
E que logo, ou até mesmo agora,
Já deve estar em outros braços, nos quais não são os meus.
Rosas ao mar
Vá em paz, companheiro, pois a vida é um leque azul
Os campos verdes te esperam para lhe banhar.
O sol, te beijar.
A lua, te esconder.
E a nós, aqui na Terra,
tenhas certeza que mágoa alguma guardaremos.
A não ser o teu sorriso.
A não ser a tua voz.
A não ser teus pensamentos no qual tantas as vezes nos alegrou.
Vá em paz, amigo.
Hoje o sol brilha em tua face
para que possas encontrar o caminho, no qual um dia,
Espero que me guies
no conforto do abraço amigo, no qual eu nunca lhe dei.
A.
Confusão
Em pouco tempo, muito menos tempo em que se possa imaginar, o que era quente se torna frio; o que era bom, deixa de existir; o sorriso torna-se tão raro quanto um camaleão negro. Estou aqui, a dar voltas e voltas com as palavras, a imaginar um balé repleto de tules com os acentos circunflexo de minhas palavras favoritas. Não sei onde pretendo chegar com meus pensamentos. Realmente, não sei. Na verdade, admito que sei, mas acredito que não sei como discorrer. Para falar a verdade, eu sei como discorrer sobre, mas algo grita perante meu peito para que eu deixe na tormenta o que me atormenta.
Se eu pegasse o caminho a direita, talvez eu chegue mais rápido a algum lugar seguro, mas se eu for pela esquerda, talvez encontre alguém, entretanto, eu posso caminhar por entre os matagais, para polpar tempo. E se? Tem algo errado nesta soma, ou subtração? Não sei, não consigo observar corretamente o que se passa em minha mente. Espera, estou enxergando. Estou vendo! Estou vendo! Não. Não... Enganei-me. Era apenas um cachorro nos escombros, ou melhor, um rato. Mas olhando melhor, esse rato está mais para um homem. Quem é esse homem? Não sei.
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Hipocrisia tem nome. Acredito que seja igual o teu, amado de belos cabelos.
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Então ele disse à ela, com o romantismo exalando dos seus olhos, semelhante a folhas laranjas sob o sol poente que caem com toda a leveza de uma penugem de corvo:
- Você não é a única na minha vida.
fim.
Pardalzinho (Manuel Bandeira)
O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!
Ciclo humano
As mãos que eram enlaçadas, agora se desembaralham.
O beijo que foi dado, agora é cuspido.
O olhar ardente, agora é fosco.
O bom dia, tornou-se silêncio.
As mensagens, não são mais correspondidas.
Os emails, todos apagados.
As fotos, foram queimadas.
As promessas, esquecidas.
As rosas, despedaçadas.
Os presentes, decompostos.
O amor.
Ah, o doce amor...
O amor, foi morto.
Os Ombros Suportam o Mundo (Drummond)
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
O que passa em sua mente quando estás chapado?
Resposta:
Pisca-pisca circulares das cores divisas dos cataventos
Tragédia de minhas ruínas nucleares
Angular, espessura de minha língua elegida pelos poetas.
Plaus, plovs, pêndulo.
Molhes o céu do meu mar que secas em minha garganta.
Venhas, descarregue no meu puto, corvo canibal,
Que corrói os músculos da inércia.
Coroas de meus peitos
Vestido preto de puta
Adormeces minha brisa
Seca, ácida e sufocante
Adrenalina
Sufoco
Dor
Virgem psicodélicas
20 poetas
1 amor.
O que teria acontecido se eu não me apaixonasse por você naquela manhã nuclear?
(Recomendo ler ao som de Since I've Been Loving You, autoria de Led Zeppelin)
A guitarra chora um canto nostálgico sobre a bela que partiu no corredor chuvoso.
A bateria soca as paredes internas do estômago como uma forma de botar pra fora
todas as baratas.
que consomem .
o resto.
do seu
amor.
Eu choro.
Lamento a melodia triste que se forma,
Quando o teclado e os demais acordes se juntam para a luta.
Ouças o ritmo poético da dor, música composta pelos pássaros de sessenta e oito.
Isso remete inspiração para meu ato fúnebre.
Baby, como seria se eu não tivesse me apaixonado por você naquela manhã nuclear.
Todos perguntam de você para mim
E eu não sei o que responder, além do meu pacífico silêncio.
Se eu tivesse uma faca, eu tentaria, eu tentaria fazer você partir.
Eu cortaria todos os seus vestidos.
Eu queimaria sua casa com meu ódio.
Eu cuspiria nos seus discos.
Eu quebraria sua face diante o espelho que denuncia a sua asquerosa alma
Na qual dediquei vários anos da minha subalterna vida.
O que teria acontecido se eu não me apaixonasse por você naquela manhã nuclear?
Nesse momento a guitarra chora por mim,
E eu acompanhado do meu copo de conhaque, deleito-me diante da morte do meu vazio.
Esse escuro é bom para eu urinar em todas as suas lembranças,
Em todos os vestígios da existência desse demônio ruivo.
Oh céus dos balaios de gatos ensurdecedores,
Mandes o maná de Marley para eu afogar-me no meu choro
Queimar meu cérebro
Até sair espuma de detergente líquido de minha boca.
Como seria minha vida se eu não tivesse me apaixonado por você naquela manhã nuclear,
Quando eu encostei nos teus olhos flamejantes e eles me deram um choque de nicotina...
Você se lembra das promessas debaixo das laranjeiras,
Enquanto os mosquitos mordiam o branco agridoce de sua pele?
Acho que não.
O que aconteceria comigo se eu me matasse agora?
Você viveria?
Você se culparia?
Você se mataria?
Sei que sua vida seria normal, torpe e corriqueira, baby
Porque eu nunca habitei o cômodo podre do teu ocre coração
canibal, ladrão, estuprador de sonhos.
O que teria acontecido se eu não me apaixonasse por você naquela manhã nuclear?