Qual seria/será a sensação de (como seria) nunca ter nascido?
Amor meu, minhas penas, meu delírio,
Aonde quer que vás, irá contigo
Meu corpo, mais que um corpo, irá um'alma,
Sabendo embora ser perdido intento
O de cingir-te forte de tal modo
Que, desde então se misturando as partes,
Resultaria o mais perfeito andrógino
Nunca citado em lendas e cimélios
Amor meu, punhal meu, fera miragem
Consubstanciada em vulto feminino,
Por que não me libertas do teu jugo,
Por que não me convertes em rochedo,
Por que não me eliminas do sistema
Dos humanos prostrados, miseráveis,
Por que preferes doer-me como chaga
E fazer dessa chaga meu prazer?
A bêbada equilibrista
Tropeçando pelas sarjetas
Vomitando os órgãos internos no banheiro
Alisando os gatos doentes das ruas,
eu saio desfilando como uma sambista
divagarim divagarim,
pois sei que na lógica da bêbada equilibrista
são dois pra lá e quatro pra cá.
Chega cá meu sinhô
dá me um abraço nessa nega suada do mar e vamos bailar no teatro de Deus,
pois hoje, na lógica da bêbada equilibrista,
são um pra lá e dois pra cá.
Êia garçom,
traga mais um suco de cevada para eu me banhar,
hoje a lua merece um brinde,
hoje estou vendendo sorrisos,
compartilhando meus cigarros com o mendigo,
dando minhas roupas para as beatas do convento,
pois hoje, na lógica da bêbada equilibrista,
são três pra lá e seis pra cá.
Não é a cevada
Não são os uísques
Não são as vodcas importadas
Nem os corotinhos de domingo
Piorou os vinhos argentinos
Estou embriagada, meu Deus
Estou chapada
Tonta
Perdida
Alucinada.
Garçom, estou bêbada de amor.
Ouvir olvides Ovídio la metamorfose humana
A gente gasta tempo demais no tempo perdido, no amor já morto, no sofrimento que nao arde mais.
Estamos sempre buscando uma maneira para reclamar da vida, dos sonhos incompletos, das desilusões, no que já passou e no que está para vir, em quem nos perturbou e continua a nos perturbar. A vida com essas atitudes, não passa de um café frio numa noite fria. sorrir dos próprios problemas é aprender com a vida. É aprender que estamos em plena metamorfose. No começo, a dor é inquietante, gritante, ardente, mas logo após o recolhimento toma conta. E é ali que nos transformamos em seres melhores, que viveu as desgraças do mundo, e que hoje vê isso como um aprendizado. E mais tarde, vem o momento mais importante do processo: quando sorrimos de tudo o que foi escrito em nossa vida, e sem pensar duas vezes, queimamos as páginas ruins, para escrever um capítulo novo. É nesse momento em que viramos borboletas.
Deus e Diabo no Parque do Sol
Escrever. Do meu verbo transcorrer para o papel alguma ideia ilustre, ou inventar um conto fantástico maravilhoso nos momentos de ócio. Talvez eu escreva sobre o colorido das asas da borboleta, ou sobre o cabelo encaracolado de Mabel, ou quem sabe sobre as aventuras promíscuas do meu cão. Escrevo para registrar o tempo que escorre pelo tique-taque ensurdecedor do relógio vermelho da minha sala de estar. Escrevo para idealizar minha musa poética que vaga pelo quarto 7 da minha mente. Escrevo, para salientar, as curvas, robustas, e vastas, do corpo, ensanguentado que se encontra na frente do mercado da esquina do inferno. Mas hoje, quero escrever sobre Deus e o Diabo no parque do sol.
Hoje eu vi milhares de pés vestidos de meias de terra. Observei pessoas de olhares perdidos, apontando para a montanha humana. Observei humanos agindo como lobos, prontos para atacar, habilitados para arrancar um pedaço da coxa alheia para defender o inexistente existente para tais. Hoje eu vi com os olhos que a chuva há de embaçar, detritos de sonhos que são esmagados todos os dias pelo esquecimento. Bem vindo a terra do sol.
Ah, como é triste o olhar perdido da sambista de cinco anos, que tenta encontrar um pão seco de esperança no meio do chorume escuro que escorre pelas valas das ruas...
Tantos bichos gordos de vermes. Revirando as latas na procura de amor, em procura de migalhas, na busca exacerbada de visão. Aqueles bichos invadiram a minha mente como vermes que escavam nossos tecidos na decomposição de um corpo qualquer. Ai que ressaca de realidade! Se Deus soubesse o quanto a mordida daqueles bichos dói, corrói, me remói, porém, aquela dentada animalesca me tirou do conforto.
Se eu pudesse... Se eu tivesse... Se eu... Se.
Aquele bicho no meio dos detritos correndo com seu filhote nos braços, não é um cão, nem um macaco, nem um gato. Nem um boi. Nem um vegetal. Aquele bicho, Manuel Bandeira, realmente, era um homem.
Poesia para as heroínas de García
Estou falecendo.
Deparei-me com vós novamente. Seus dentes brancos e pontiagudos morderam-me no primeiro flash back. Sim. É você o único responsável pela minha desgraça.
Meu sangue está fervendo. Meu Deus, estou falecendo. É um sulco branco e pastoso responsável pelo meu afogamento. Um mar alvo espumoso invade o meu coração torpe. Estúpido. Podre das cinzas de todos os cigarros que fumei. Estou morrendo.
Queria ver meu filho. Se é que eu gerei algum. Queria poder voltar no tempo para poder ter embaraçado alguma donzela, viúva. Rapariga. Nenhum herdeiro para meus livros. Minhas deusas do Olimpo estarão descobertas sem vossas máscula armadura. Grande Hera! Nenhum herdeiro para minha heroína. Queria ver meu filho, pois estou falecendo...
Estou falecendo. Estou falecendo com medo de que ninguém lance uma rosa no meu enterro, ou que não retirem meu corpo empedrado da sarjeta do meu vizinho ou que não queimem minha matéria para se homogeneizar com o mar.
Estou falecendo? Estou falecendo! Homem coberto de ouro, mas recheado de chorume! Como fui inútil perante minhas quimeras!
Fui herói da barbárie humana, herdeiro das catastróficas teorias do extermínio inconsciente de minha felicidade. Meu Deus, estou falecendo e nunca realizei um ato de orgulho! Estou morrendo e jamais serei recordado pelas minhas ideias e teorias torpes. Estou morrendo e só agora percebi que serei lembrado por ter assassinado as esperanças e as verdades da rosa. Estou morrendo. Estou morrendo filosofando, engasgando com minha infeliz desgraça.
Se eu tivesse a coragem de Hércules... Oh Zeus, Deus meu... Meus braços não estariam perfurados, desejando o mel extasiante das abelhas diabólicas. Abelhas heroínas. Tudo o que não fui durante minha vida.
Venderia minhas vestes, os fios de meus cabelos, meus dentes, minhas vísceras por uma caneta e um pedaço de papel de pão para anotar minha carta de falecimento.
Nenhuma marcha fúnebre. Nenhum protesto. Nenhum lamento ou discurso para me honrar. Estou falecendo olhando para as duas luas irreverentes que me banham de luz. Enquanto morro, meus bolsos são desvirginados por ágeis pássaros.
Estou morrendo e tudo o que escrevi mentalmente nunca será lido. Lembrado. Reelido. Declamado. Queimado.
Jazi.
García
Lá está García. Caminhando por entre as pedras enveredadas do vale obscuro do teu ser, tentando encontrar nas inúmeras portas de um corredor vazio, a felicidade que pensas que existe.
Como é triste observar, García procurando nos abraços apertados o calor que não recebestes quando sua musa lhe deixou na batalha. Oh Zeus, porque não protegestes García das garras perspicazes do amor maligno quando este, lhe invocou com todo o ar que preenche teu pulmão poroso? Oh Zeus, vês García se arrastando pelas casas vermelhas de músculos fortes, agitados, ensanguentados, batendo de porta em porta na venda de um produto que ninguém deseja adquirir!
Seu nome é García. García encontraste um traste de duas faces, correspondente ao amor platônico e a ignorância perante ao público. García está aos poucos vendendo a esperança que lhe roubou de Pandora para o traste que encontraste, mas, em apenas um gesto, o coração de García foi negado novamente.
Lá vai García... Se arrastando pelos trilhos do trem da vida, deixando um rastro de lágrimas chuvosas por onde quer que passe seus pés. García é um homem que já sofreu todas as desgraças prevista pelos deuses do Olimpo. García é um homem bom, porém, não o suficiente para as donzelas de cabelos ruivo, que desfilam pelos vales mostrando vossos dotes para os pretendentes de bom bolso.
E assim vive o desgraçado García, se satisfazendo de carniças que encontra pelas tavernas. Comendo farelos de pão para satisfazer por uns dias a dor que carregas em uma mala de pano costuradas com fios de chumbo. Vês! Lá está García, aquele que desistiu de se entregar para os sorrisos marotos e enganadores das noites profanas. E assim prossegue, o mal amado García.
García é um homem que não foi abençoado pelas mãos rosadas de Afrodite.
García não é um homem.
García não é um animal
García é uma mulher.
Logo, sou eu.
Manifesto ao Partido Consumista
De nada vale todo o ouro que reluz.
Enraizada naquela esquina matinal, onde corpo já se acostumou a seguir uma dada trilha para ir de encontro ao ponto, lá estava esta pessoa matutando pensamentos sórdidos sobre nada. Eu necessitava ter o mundo, o passado, o presente e as eventualidades futuras no guarda-trapos. Necessitava a esse ser os brilhos encrostados no chão, a terra prometida da moda, o vermelho escaldante dos toc-toc. Aqui jazia o sentimento no qual nunca surtiu frutos. Nem foi regado. Plantado. Aqui jazia a rosa que já nasceu murcha, cujo sol teve como participação no ato dançante, a corte de secar o que nem sulco possuía. Mas, no mesmo terreno, surtia como quem deseja roubar a luz do brilhante, mesmo que exteriormente seja um Citrino, uma flor do campo imponente. Assim, essa alma era consumida em pé por um cosmo cifronizado.
Começa a chover. Não era a véspera do escarro, mas sim a véspera do inverno. Inferno para dois cidadãos guiados pela sina de carregar no pescoço a desgraça de uma vida desconstruída. Naquela chuva torrencial, as duas imagens não estavam a dançar. Não há apelo para o romantismo. Não havia tango e nenhum tipo de performance, apenas o rugir da fome. O barulho dos chinelos sobre as poças surtiam marteladas em minh ‘alma. Estava a observar aquelas duas criaturas a vagar pelo dilúvio congelante, uma trajando um vestidinho singelo regado de flores e o outro vestindo uma bermuda marrom rasgada que nada combinava, segundo a tendência de inverno, com a camisa azul piscina. Estavam procurando em meio ao caos como o urubu que procura carniça, algo mastigável.
A mulher saía como uma testemunha de Jeová batendo em porta em porta, mendigando pelo amor de Deus, um pedaço de pão. Um se arriscou na chuva, e ofereceu à senhora um saco de arroz e um quilo de feijão, porém, em outra tentativa, dois irmãos vizinhos, bateram a porta em sua fuça. O homem junto a ela arrastava pelo asfalto, um carrinho artesanal contendo todo quanto é tipo de material reciclável-sentimental. Eram dois seres humanos tentando sobreviver no mundo de feras. E eu era uma fera. A fera que consome, que mata, que fode, que chamusca nos vales verdes. A fera sistemática. Eu sou a onça, o extinto beija-flor, a tartaruga-de-pente, a garça branca, a arara vermelha, a garoupa e o mico. Eu sou o lobo do homem. Diante daquele espelho, fosco, os meus olhos cegos de mirra enxergaram pela primeira vez a minha veste marrom ornada com flores, sendo que a flor central da minha vestimenta era aquela rosa que nunca vingou. E assim, como um cego curado a partir da mistura homogênea de cuspe e terra, vi a minha sombra partir, sobre os confins do mundo das sucatas, onde nada reluz, além da esperança bruta que permanece virgem, na espera de ser esculpida.
Velar
Vozes volupiosas veladas pelo vento,
voam pela ventania ventada e inventada do poeta
visto o vento como vozes veladas
volupiosas de vestes verdes pálidas e ocas das ventas
profanas do poeta
a ventania vetada ventada e inventada inventa o poeta.
Eu ventei
por muitas vezes
para além do poeta vetado e velado de verdes vestes pálidas
das ventas
profanas
das vozes.
Eu voei. Voalá
voltei para as vozes volupiosas e
aveludadas do meu amor
volupioso
Voei de volta para a volúpia mente volaz do poeta.