Baile de formatura
Ele dançava
Sujo
Desesperado
A sua dor era transcrita em seus pés, ao qual dava
vacilantes passos.
Ele deita no chão e põe a mão no peito.
Eu sinto o seu coração rasgar com o sopro de uma faca.
A veracidade do seu grito me surpreende.
Um grito de guerra
Um grito para a selva
Apenas um grito.
É ele quem grita, ou a dor quem grita ?
Meus olhos acompanham a corrida em busca de um corpo sem
alma que se movimenta mecanicamente.
É um amor descontente e estranho.
Anormal para muitos que nunca amou.
Como eu
Que sei o que é sofrer
Mas não sei o que é amar.
Ele voa para o céu, como um pássaro procurando um lugar para
jazer
Mas acaba caindo na terra, sua mãe, sua tia, sua irmã. O
inicio do céu e a realidade infernal
Onde encontra seu corpo despedaçado, por uma máquina sem
vida
Sem sulco
Sem coração.
Hanukkah
Minha casa não tem pisca-pisca. Minha casa não tem árvore de natal nem papai noel entrando pela chaminé. Eu moro em uma casa razoável, tenho tudo o que necessito e a minha mesa esta farta e coroada com um pero gordo e galante. Nunca fui muito de fazer reflexões nesta data, eu apenas deixava o espírito da data me incendiar por dentro. Eu sempre fui daquelas pessoas que se fartam com a família, conta histórias, depois dorme onze horas e acorda no outro dia indisposta porque comeu além do que poderia suportar. Eu era assim.
Eu sinto que nessa data de 2012, algo mudou em mim, e não foi por que minha mãe comprou pisca-pisca, nem arvore de natal, ou pior, nem porque ela adquiriu um gordinho capitalista para pendurar em nossa porta, algo mudou porque pensei em famílias que não possuem pisca-pisca, árvore de natal e papai noel grudado na porta. Elas não possuem porque são subalternas, relegadas a uma condição desumana, ou melhor, animalescas. Eu passei, em uma data especial nos escombros onde estão enterradas as esperanças de vários humanos, e lá, eu senti que eu sou um nada. Uma bola vazia. Lá eu percebi que eu tenho muito o que fazer por essas pessoas. Engraçado, enquanto eu estou aqui, desfrutando uma coxa suculenta de peru, alguma família de algum lugar do mundo deve estar comendo alguma coisa que conseguiu na lixeira. Enquanto eu olho minha sobrinha berrando porque quer um pula-pula, vem em minha mente o rosto de criancinhas que depositam suas esperanças nas cartas destinadas a um tal de papai noel, mesmo sabendo que seus pais são tão pobres que eles nunca terão condições de realizar o sonho de seus filhos, então, eles choram por verem seus filhos chorarem. De fome. De tristeza. De vazio.
Hoje eu nasci de novo, junto com o meu salvador. Hoje, eu não presenteei o aniversariante, e sim, ele me presenteou, dando-me uma grande fatia de humanidade. Quando fui pegar meu chinelo debaixo da cama, encontrei um pacote com o embrulho mais ornado, e nele havia um cartão. No cartão, continha uma mensagem que esqueci no momento, mas era algo como "nunca desista da humanidade. Ajude seus irmãos". O presente... Ah o presente, esse não posso revelar, mas digo que nele está bordado "SUA MISSÃO", juntamente com umas ferramentas, das quais eu me servirei, para mudar o mundo.
O quebra-cabeça
Inocente, monstro ou
culpado? Não sei, ainda estou a decidir meu julgamento. Para falar a verdade,
não me importo com a minha decisão, eu apenas fiz o que deveria ser feito.
Considero-me um homem de bom coração, conservador e de bons costumes, oriundo
de uma família tradicional da Barcelona. Tenho meu emprego, minha família e
meus cães, ou pelo menos tinha. Tenho tudo o que eu desejo, e isso é bom.
Trapacear para alcançar o topo da montanha é bom também.
Possuo trinta e três anos de idade, mas tenho
aparência de dezoito. As adolescentes quando me veem, se molham toda, como um
sorvetinho derretido. Umas, começam a enrolar o cabelo, outras cruzam as pernas
sensualmente como uma atriz famigerada de um filme antigo, e isso tudo, os sorrisos sedutores, o
alisar as coxas, o lamber dos lábios, sempre irritou e foram motivos de brigas
entre eu e Antonieta. Minha esposa.
Antonieta tinha uma bela face, dona de olhos
amendoados que me hipnotizaram quando a vi pela primeira vez em uma estação de metrô.
Ah, como sinto falta de Antonieta... Do seu andar suave pelas escadas, dos seus
gritos por todas as vezes que eu deixava a casa suja de neve, das suas carícias
durante a noite, como quem deseja algo para si. Eu a amei incondicionalmente,
como um adolescente ama seu ídolo durante a juventude, mas, devido esse grande
amor, eu fiz a maior besteira de minha vida.
Antonieta também atraía olhares masculinos,
devida sua beleza e seu bom caráter, e isso me deixava descontrolado. Eu sabia
que ela gostava, eu sabia. Aquilo a fazia se sentir mais mulher, deixava-a com
ar de superioridade, de desejo, a fervia de uma maneira que nem eu tinha forças
para apagar suas chamas. Eu era, ou melhor, eu sou desesperadamente apaixonada
por ela, e esse amor me transformou em um servo delinquente. Eu não aguentava
mais esses olhares para Nieta, eu estava surtando, pois eu sabia que ela tinha
outro. É? É!!! Sim, ela tinha outro que eu sei. Ela era muito gentil com o
mordomo da nossa casa, sempre tão doce e simpática com aquele empregadinho idoso.
Eu sei! Agora tudo faz sentido... Era ele. Como ela pode? Como pode! Ela
mereceu, eu fiz o que era para ser feito. Ela mereceu. E ele também.
Numa noite de setembro de 1962, eu planejei tudo
perfeitamente. Observei-a o dia inteiro, e tudo o que eu sentia quando a olhava
era de realizar logo o meu plano. Estava latente em meus olhos aquele desejo,
mas o amor louco que eu sentia por Nieta, gritava dentro da minha cabeça para
esquecer-me de tudo. Era a razão me cutucando, mas, ignorei-a.
Eu passei sua melhor roupa,
fiz o seu prato favorito, a servi como um escravo, e ela estranhou toda essa
atitude, mas sempre amorosa para não me deixar aborrecido. Essa doçura, esse
carinho pelos subalternos, esse comunismo de outra era... Isso tudo me deixou
louco, pois ela era boa demais, e ser bom demais atrai pessoas, principalmente
homens galantes. Lembrar-me das qualidades de Nieta, me deu coragem e ódio para
concretizar minha tragédia grega e assim, fui à cozinha e preparei um chá
batizado. Ela bebeu satisfeita e me deu um beijo na testa como forma de
agradecimento pelos meus gestos cavalheirescos do dia. Quem estava satisfeito
era eu, pois ela mal sabia o que a esperava...
Nieta começou a reclamar que sentia muito sono,
depois começou a dizer que seu corpo formigava. Está fazendo efeito...
FINALMENTE! Está fazendo efeito... Ela dormiu naquele instante, enquanto falava
como uma velha rabugenta, e eu, rapidamente a peguei no colo e levei-a para o
porão. Lá estavam meus utensílios básicos, então dei início a minha prova de
amor. Ela não acordaria nunca, aquela droga é semelhante à morte seguida da ressurreição,
mas sei que ela me ouvia e que sentirias tudo, e isso era o que me deixava
excitado e em êxtase.
Depois de tirar o seu
vestido e a amarrar em uma maca, comecei a pontilhar o teu corpo inteiro,
aquilo deixou de ser uma vingança para se transformar em uma fantasia sexual
odiosa, e eu estava todo arrepiado com essa deliciosa experiência. Nieta estava
deitada, parecia que dormia como um anjo, entretanto, eu sentia que ela estava
com medo, então, para dissipá-lo coloquei em um toca fita velho, um tape com
sinfonias de Chopin para acalmá-la, então dei início à brincadeira. Peguei uma
serra automática, essas, para cortar superfícies duras. Comecei o processo de
baixo para cima. Primeiro, serrei seus dedos, depois, os pés, o joelho...
Quanto sangue... Quanto sangue com cheiro de flores fervidas. Aquele cheiro
adentrou em minhas narinas e me deixou dopado, como uma droga forte. Eu sentia
algo aqui embaixo subir, e eu estava gostando disso. Nieta não se mexia, não
gritava, e pior, nem acordou. Mas eu notei que de seus olhos escorriam lágrimas
cristalinas, e eu, para acalmá-la dizia que tudo iria ficar bem, daqui algumas
horas.
Fui jogando os pedaços de meu amor em um tanque
cor-de-rosa cheio de formol, para que depois eu decidisse o que fazer com teu
quebra-cabeça. Eu a cortava lentamente, sem pressa e sem desespero. Em cada
traço, eu escrevi em cima o nome daquele maldito mordomo, seu amante idoso. Eu
comecei a ficar raivoso, ficar histérico e fiz com que ela sentisse mais dor.
Imergi a serra no álcool, e dei início ao corte. Ela abriu os olhos. Aqueles
olhos castanhos me fitavam pedindo que parasse, mas eu não podia mais. E assim,
durou por 4 horas esse jogo. Nesse tempo eu cortei seu ventre, seus seios, seus
braços até chegar a sua cabeça. Depois de colocar tudo no tanque com formol,
tirei a roupa suja e fui dormir.
Na manhã seguinte, estava obcecado em botar em
prática meu plano contra aquele velho, e assim, o fiz. Só sei que quando estava
preste a matá-lo, ele confessou-me que era meu pai (aquele que tinha me
abandonado aos oito anos de idade), e que trabalhar em minha casa seria uma das
formas de ele se aproximar de mim, e que Nieta apenas estava o ajudando a criar
coragem para contar-me a verdade. O velho gritava, implorava perdão e pedia que
eu o matasse logo, pois não merecia mais viver. Ele gritava isso toda hora,
como um disco furado, e eu não sabia pensar em outra coisa, a não ser em Nieta.
Nieta, meu amor, por que eu fiz isso? Meu Deus, o que meu ciúme doentio causou!
Eu a matei, eu a matei e me senti bem! Eu sou um monstro meu Deus! Nieta,
Nieta! Deixei meu pai amarrado e fui correndo para o porão. Destampei o tanque
e comecei a chorar. Eu chorava pela a desgraça que fiz a sangue frio, eu
chorava por ter matado a mulher dos meus sonhos, e ela ainda estava viva
enquanto a cortava como um açougueiro... Enquanto surtava, veio umas hipóteses
em minha mente. Sim, poderia dar certo, tinha que dar certo...
Dei início a minha ideia, recolhendo os pedaços
de Nieta do tanque rosa. Joguei tudo no chão e comecei a costurar parte por
parte e isso foi um processo árduo e cansativo. Fui terminar o quebra-cabeça na
oitava noite de outubro. Quando costurei a última orelha e coloquei seu
vestido, eu dei um sorriso quente e meu coração voltou à vida. Estava esperando
ansiosamente ela levantar do chão e me perdoar desse erro maldito, mas isso não
aconteceu. Nieta estava cinza como uma carne cozida, eu não a reconheci. Quem
era aquela? Por que ela não levanta? Assim, somente dessa maneira, eu dei conta
que tinha matado a razão da minha vida. Eu libertei o velho, e ele saiu
correndo depois de eu mostrar o que eu fiz por causa dele. Sentei no sofá e me
auto flagelei para tentar me livrar da culpa, mas, depois comecei a pensar. Os
pensamentos tomaram conta da minha cabeça, e tudo começou a fazer sentido
novamente... Sim, é. É verdade, talvez seja verdade... Pois sim, isso poderia
ser evitado... Eu concluí que se Nieta tivesse me contado sobre meu pai antes,
eu não teria feito nada disso. É, a culpa foi dela mesmo. Somente dela.
Apaguei a luz do porão. Fiz um chá e dormi tranquilamente
abraçado. Com o quebra-cabeça de Nieta.
Carta de (des)apego e (des)amor
Eu estive, por um longo tempo da minha vida, caminhando sozinha em uma estrada de grandes e porosas pedras, sempre com medo de ser engolida pelo sol, ou de me afogar em meio à escuridão. Comportava-me com toda a fragilidade da rosa, como uma garotinha com medo de uma inofensiva lagartixa de banheiro, ou como um moleque que perdeu seu carrinho favorito, mas tudo isso, de certa forma, representava a minha sensibilidade diante do mundo cruel. Esse mundo cruel que nos cospe.
Um dia, um dia desses com bombardeios solares a nos tocar, eu estava a morrer de desidratação. Não sentia mais minhas mãos, minha face, meus pés. Meu coração estava prestes a parar, e seria ali mesmo que minha alma seria sepultada sem nenhum discurso. Estava preparada para morrer no vazio dos copos caramelizados. Estava pronta a sentir a dor dos pés ao pisar em cacos de vidro verdes jogados no sambódromo. Estava a me decompor ao relento do desamor. Porém, quando eu estava a dar meu último suspiro terreno, chegastes tu para capturar de volta a minha alma que já estava a bailar no céu dos falecidos, e foi com seu toque que meu peito se encheu de ar, e de um sufoco com gosto de morangos. A ti eu dei minhas mãos para me guiar de volta para casa, e você me conduziu com toda a delicadeza de um verdadeiro cavalheiro.
Os dias passaram e eu comecei a lhe mostrar todos os cômodos da minha casa. Eu sabia que a sala de estar era teu lugar favorito, então, sempre te pegava pelas mãos e lhe arrastava lá para que enquanto nos delírios de nossa mente, eu lhe oferecer um copo de leite morto da fonte do Olimpo para tu suspirares por mim. Eu estava feliz, ali, naquele cômodo vazio e pequeno. Acreditava que ali, você ficaria para sempre, esquentando como um aquecedor no inverno, todas as artérias do meu ser. Eu confiava a chave da minha casa em suas mãos, e só você as possuía. Só você. Eu começava a acreditar, depois de alguns dias de convivência, que eu estava renascendo no meio daquele bombardeio nuclear-solar. Eu estava amando você.
Não sabia exatamente explicar como aquilo funcionava, mas é algo parecido como uma escola de samba: para sair som, necessita-se de instrumentos; para seduzir, as mocinhas sambistas; para encantar, enredo; para funcionar, união; para fascinar, fantasias. É um exemplo bobo, mas só queria dizer que o meu coração se assemelha a um tambor dessas escolas quando te avisto, e no momento em que te beijo, parece que todos do sambódromo imaginário cantam um soneto de amor do Neruda.
A gente acredita, que amores como esse só acontecem uma vez na vida, e que quando eles chegam, ficarão para sempre em nosso apartamento, deixando rastros da existência em cada cômodo do lar. A gente acredita que toda noite, um disputará quem fará cafuné até o outro dormir, ou quem escolherá os filmes da sessão de domingo. Eu acreditava que o amor, quando chegasse, transbordaria toda a minha existência. Só não cogitei a ideia de que quando o amor acaba, ele simplesmente, acaba.
Estou aqui, na minha cama vazia, a abraçar meu travesseiro imaginando ser teu corpo. Minhas lágrimas estão a derreter nossas fotos. A minha mente insiste em projetar a primeira vez em que você dirigiu a palavra para mim, e eu me queimei toda de felicidade ao saber que me desejavas. Tu estavas bêbado naquela noite fresca de setembro, e eu estava do outro lado do computador a lamentar meus dias. Chegastes dizendo cantadas baratas, a qual eu ri muito, mas que ao mesmo tempo, achava um encanto o seu jeito de menino das pipas. Fiquei remoendo aquela conversa na minha mente durante toda noite, e só assim, eu pude perceber quão bom foi nossos pequenos suspiros de amor. Se é que houve amor.
Eu nunca te tive, isso é fato, e você sabe muito bem disso. Sua vida de cão andarilho e de alcoólatra nunca permitiu que eu chegasse de mansinho e habitasse sua sala de estar, como eu permiti que tu fizestes comigo. A sua necessidade de liberdade extrema, me aprisionou na lavanderia escura, e lá, você me deixou, dias e noites, só me libertando no momento em que se sentias só. E eu, cachorra fiel, corria ao seu encontro com um osso na boca, a espera de carinho e amor, mas sempre ciente que a qualquer momento, você colocaria em mim aquela maldita coleira de bronze. Foi assim, durante horas, dias, meses. Fiquei sempre a sua espera, durante um bom tempo, e você nunca mais entrou por aquela porta, e ali, eu morri por falta de alimento, ali, jazi por falta de amor, e não demorou muito para livrar-se de meu corpo. Você queria sua casa sem intrusos. Eu, seu antigo amor, era uma intrusa em sua sala de metal.
Hoje descobri que um ser humano pode ter tudo em mãos, mas em apenas um milésimo de segundo, o vento pode levar tudo embora. O que era vivo, murchou. O que me esquentava, virou gelo. O amor, simplesmente o teu, acabou. O meu coração, (in)felizmente ainda continua a pulsar todos os dias por ti, e dessa maneira, eu, poeta dos iludidos continuo a morrer, nessa estrada seca, de (des)amor.
Ócio tão bom quanto uma camisa velha
Levantei-me da cama eufórica. Sorridente.
Senti pela primeira vez o frescor do vento batendo em minhas costas, sem que o peso de minhas desgraças me privasse de poder correr pela rua. Sim. Pela primeira vez, depois de tantos dias, como se eu mantivesse minha cabeça dentro de uma sacola negra, eu pude respirar novamente a liberdade fantasiosa que privei-me por muito tempo, para poder assumir minhas responsabilidades acadêmicas.
Hoje levantei cantando como um pardal depois da chuva. Preparei um café da manhã especial parecido com aqueles, que os amantes namorados realizam quando completam alguns meses de sei lá o que. Ah... como é indescritível esse sabor. Um chá quente com torradas libertinas... Era tudo o que eu queria...
Sei lá. Não sei mesmo. Mas creio que esses ares burgueses durarão pouco. Eu sinto que quando esse momento chegar, o vento fresco de inverno passará longe de mim, porque daqui uns meses, tudo começará de novo. Ainda bem que já comprei uns bons frascos de dipirona.
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Vão todos tomar no cú, capitalistas escrotos do inferno!
Bang Bang
Na minha mente passa um filme de amor que nunca mais se repetirá em cinema algum, porque fiz o favor de rebobinar aquela fita antiga, que estava guardada em um cômodo qualquer, de um coração qualquer. Sentimentalista dos românticos arqueiros, flechei com uma brasa quente o meu próprio peito, para curar as artérias e cessar o sangue que um dia juramos que dele, nasceria nossa flor pura.
Deus, o que fazer do homem quando percebe que tudo o que ele jurou, com os seus olhos amendoados, era uma pequena brincadeira de criança? Lembro-me de uma noite, em que sonhávamos planejando o dia de amanhã. Qual roupa vestir, qual escova usar, que batom passar. E nós dois, dois pássaros amarelos, voamos pelo infinito do sentimentalismo, onde duas pedras ocas, se encheram da vida realmente humana...
É bom lembrar das peripécias amorosas da nossa pequena peça teatral vital. É bom lembrar que um dia, essa pedra mucosa já respirou ares de Paris. O que me conforma, são os tombos da sarjeta após o bar, mas essas danças alcoólicas não são pra você e nem por você. São para mim, lembrar, que um dia, um dia desses ensolarados de verão, meu coração já foi de alguém.
relato de uma esquina qualquer
Um dia, fomos nós. Ontem, o tudo foi nosso. Nosso café, nossa cama, nossa roupa, nosso sofá.
Um dia, eu era a sua garotinha, a sua pequena. O seu amor. Um dia, você foi tudo o que eu nunca tive antes, agora você é tudo o que eu não tenho.
Fico a observar as fotos do passado, nossos sorrisos, o balanço do final de semana, o arco-íris que abraçava as montanhas, as torres coloridas de sorvete, as garrafas vazias de cerveja em cima da mesa, o beijo apaixonado debaixo da chuva. Uns meses atrás isso tudo foi meu, e eu, fui sua. Eu chorei, por dias longos e torturantes a sua partida. Chorei por todos os minutos que eu imaginava você do meu lado. Gritei por aquele suéter que avistei, quando imaginei você dentro dele. Rasguei meu peito quando frequentava, todos os dias, os lugares que costumávamos ir, para iludir-me com a ideia de que a qualquer momento você voltaria ali para me encontrar. Mas você não voltou.
Hoje, termino de digitar essa história que permeou a minha mente, quando avistei uma pessoa semelhante à da história narrada que me fez relembrar o momento doce que eu tive por um instante em minha vida. Foi tudo o que eu nunca tive de melhor antes. Durou muito menos que o tempo de vida de uma borboleta, mas o sabor do amor que eu senti foi inesgotável. Não sei se existe alguém que se identificou com o relato, se ainda existe amor nesta era. Se ainda existe o romantismo no olhar. Se alguém o encontrar, aproveite-o, porque não existe nada mais doce que o "nós".