Fundo, fundo. Era fundo o poço onde se enfiara. Fundo e escuro. Espesso. Viscoço.
O que eu tinha se resumira naquele poço. Estava lá, no meio de cardumes canibais que mordiam e sugavam a matéria viva que já dava indícios de desviver. Desvivência era a minha, de observar aquela maré escura que se alastrava naquele poço e não poder pular. Eu não podia, nem tu podias, desconstruir as amarras que nos prendia, e com muito penar eu sentia que eu afundava também, mas afundava ao saber que não deixavas meu corpo agir.
Tivera eu a ideia de lançar-me ao vazio, onde habitava sua substância. Fui caindo propositalmente naquela escuridão, naquele mar de gritos silenciosos que deixaras louco a metade minha que eu procurava. Cavei buracos, andei desertos, percorri a nado o frio só pra chegar onde tu se encontravas, e lá o achei, bichinho que amo por inteiro.Tu, figura romântica, és o meu pão. És a lamparina da cozinha. És o cobertor que me colore. És chão e luz. Nada do que irá dizer para que eu parta, eu ouvirei. Mesmo se varrer meus pés eu ficarei. Se me ignorar, permanecerei encostada na parede fria, mas dali não sairei sem ti.
Ninguem entende... Nem tu, meu doce amor. Duas substâncias juntas, se resolvem melhor. Não sou boba por pular em um poço, nem burra por não medir a catástrofe. Sou boba por amar. E quero morrer bobeando.
Era dia de alegria na cidade e eu sabia disso. Antes de chegar ali, eu fiz questão de pegar meu melhor chapéu e de calçar meu sapato novo para quem sabe, riscar na gafieira. Eram dez da manhã e o sol ardia em minhas pernas. As alegorias se preparavam para o ultimo dia de luxúria. Os meus olhos corriam pelas veredas sem pressa e sem ânsia. Apenas corriam pelo asfalto. As horas passavam e eu continuava sentado na cadeira amarela, esperando que as mesmas se transbordassem em um mar de álcool e que ali mesmo eu me sucumbisse. Estava com pressa de me elevar ao cume, e de lá, observar tudo o que me rodeia. Aquela mesa foi suficiente para eu comprar a minha passagem de ida e ali mesmo poetizar as iras da minha vida. Fui passista de muitas alas. Ah, como eu fui... E agora tudo se resume em meros confetes sujos de terra. Eram dez da manhã e o sol ainda ardia meus pés. A cerveja já tinha esquentado, mas eu não ligava. Não ligava para mais nada, além do que eu estava a esperar. Esperei por tempos, e por horas e por segundos. O vai e vem de cervejas me deixou zonzo o suficiente para fazer um pedido de Chico. A banda tocou de sorriso amarelo, e logo fiz questão de botar meu choro pra sambar lá em Moscou. O chorinho foi e voltou trazendo notícias de Nina. Pensei nela durante os goles bruscos de caos enquanto o cordão e a Banda estava a passar... Todos se foram e eu fiquei a escrever os pensamentos em um papel de pão. Rasguei-o e voltei a delirar. Eram oito da noite quando o garçom pediu para eu me retirar.