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Amor em prosa



É delas meu amor cônjuge que conjugo na primeira pessoa do plural. Passo a ser delas entregando meus sapatos, dispondo as gravatas na gaveta, jogando minhas camisas e suspensórios na inércia do sofá. Sou delas quando meu peito inflama minhas artérias, flambando meu riso e verbalizando meu corpo até que se torne intransitivo. Sonho acordado com o beijo face a face da musa drummondina e com seus cabelos encaracolados presos num coque pós-moderno que, depois de desfeito os grampos e caprichos, me transporto sedento para um classicismo inexistente.  É delas a projeção de uma arquitetura romântica que de meu peito salta e pulsa vivo, na linguagem inédita dum brasileirês gingado e suado herdado de meu pai, respeitado contrabandista sentimental.  De todas as cores meu pensamento as invadem grudando em seus vestidos de chita barata, subindo pelos colares de pedraria até chegar à cara bronzeada, iluminada por tantos olhos que os homens não sabem ler. Cego-me na beleza das pernas moldadas a meias rendadas, timidamente escondidas no meio de ousadias que minhas mãos obrigatoriamente devem se arriscar. Saio de casa entregando minhas mágoas nas mãos de tantas outras que um dia me fizeram feliz, e me perco em pensamentos absurdos a respeito de mergulhos em mares opacos e volumosos, que só de cogitar, me deixa suado e cansado. É delas minha personagem fictícia, que inventa amores e enredos de verão, sonetos na praia de Copacabana, prosas e versos que se desfazem com a chegada das ondas. Sou delas, e sou triste, porque meu coração é uma pluralidade de signos indecifráveis, de amores compartilhados, que nunca será e nunca foi de uma só. 

Alegoria dos significantes

Angela Batista, 19. Tenho todos os anos do mundo, ao qual não sinto necessidade de revelar. Aprecio sorrir para um gato na rua, molhar-me junto com meus cadernos na chuva, rir quando é para chorar e sofrer quando tenho que sofrer. A arbitrariedade da vida me fascina, assim como o cheiro dos pés de laranjeiras. Sem rodeios, sem discurso poético, seja bem vindo, as minhas alegorias.

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