É delas meu amor cônjuge que
conjugo na primeira pessoa do plural. Passo a ser delas entregando meus
sapatos, dispondo as gravatas na gaveta, jogando minhas camisas e suspensórios
na inércia do sofá. Sou delas quando meu peito inflama minhas artérias,
flambando meu riso e verbalizando meu corpo até que se torne intransitivo.
Sonho acordado com o beijo face a face da musa drummondina e com seus cabelos
encaracolados presos num coque pós-moderno que, depois de desfeito os grampos e
caprichos, me transporto sedento para um classicismo inexistente. É delas a projeção de uma arquitetura romântica
que de meu peito salta e pulsa vivo, na linguagem inédita dum brasileirês
gingado e suado herdado de meu pai, respeitado contrabandista sentimental. De todas as cores meu pensamento as invadem
grudando em seus vestidos de chita barata, subindo pelos colares de pedraria
até chegar à cara bronzeada, iluminada por tantos olhos que os homens não sabem
ler. Cego-me na beleza das pernas moldadas a meias rendadas, timidamente
escondidas no meio de ousadias que minhas mãos obrigatoriamente devem se arriscar.
Saio de casa entregando minhas mágoas nas mãos de tantas outras que um dia me
fizeram feliz, e me perco em pensamentos absurdos a respeito de mergulhos em
mares opacos e volumosos, que só de cogitar, me deixa suado e cansado. É delas
minha personagem fictícia, que inventa amores e enredos de verão, sonetos na
praia de Copacabana, prosas e versos que se desfazem com a chegada das ondas.
Sou delas, e sou triste, porque meu coração é uma pluralidade de signos
indecifráveis, de amores compartilhados, que nunca será e nunca foi de uma só.