São Paulo, 22 de setembro de 1998.
Mommúsin
Lhe escrevo para saudar as saudades minhas. Teu jeito conservador e revolucionário faz falta em minha desordem, assim como suas cartas que me traziam detalhes e cheiros de rotina. Os dias passam e pergunto até quando as semanas continuarão estáticas. Até quando permanecerás aí, do outro lado da fronteira? Não sei se recebeu minhas correspondências, ao menos poderia ter me telefonado de algum orelhão. As coisas estão difíceis, e você desapareceu novamente pelo universo. Preciso de ti.
Se soubesses como é gostoso amar, não me deixarias morrer de solidão. O que eu quero dizer é que sinto falta do cheiro do teu café. Mas a saudade do aroma do teu café é menor, se comparada com a saudade de sua pouca barba. Ou com o roçar de nossos pés. A minha rotina está repleta de teus tons, acordes e lálálá. As minhas calcinhas estão sambando no varal esquecidas com o teu conjunto preto e branco. Quando é que você volta para casa mesmo?
Comprei um disco novo para ouvirmos enquanto conversamos sobre personagens de cinema, espero que lhe agrade. Tive de devolver o teu filme para a locadora, e pagar uma generosa multa porque você não fez isso antes de partir, mas é de menos. Quanto mais escrevo, mais percebo que preciso do teu amor. Sabia que o leio todos os dias? Você era um grande poeta quando me descrevia, sinto saudade de ser sua eu lírica.
Você desapareceu e não sei, de fato,se eu fizera algo contra ti. Se sim, me perdoe. Já faz alguns meses que espero sua pessoa entrar na minha vida com uma flor na mão. Minha bunda dói um pouco, por favor, não demore tanto. Ainda usa a safadeza do bigode? Encontrei uma receita de bolo de fubá que posso fazer numa tarde qualquer, mas ele vai ser somente seu porque não gosto de fubá. Estava pesquisando alguns lugares para podermos visitar. Prefere algo como Recife, ou Pernambuco? Precisamos nos decidir, para eu começar a planejar o que levar na mala, se não acabarei carregando dilúvios e você reclamará de dores nas costas porque sempre insiste em carregar minhas bagagens.
Estou com saudades. Por que demoras tanto? Fui demitida semana passada, agora tenho mais tempo para curtir nossa pluralidade. Seria bom que estivesses aqui, pois sinto muito frio. O inverno chegou e com ele, veio a solidão de dormir sozinha. Estou meio selvagem, talvez gostaria de me ver assim nesse estado. Já escutou Fera Ferida?
Não sei se estás a receber minhas correspondências. Acho que já disse isso. Você ainda me ama? Onde estás? Fiz uma lista de afazeres para nós dois. Preciso de tuas rimas e de teus acordes. Me acorde quando chegar. Espero que esta carta não volte para minha casa, assim como as últimas escritas. Você mudou de endereço e nem me avisou?
Je t'aime.