A gente vai ficando velho, caduco, talvez experiente. O crescer da barba, os fios de neve denunciando a cabeleira negra e as pintas marrons espalhadas na cara, retrata o chegar dos tempos. A gente vai vendo os filhos partirem mundo afora, os netos a quebrar os móveis, os pais a seguirem outro rumo paralelo, tudo num eterno silêncio.
Ontem mesmo, na primavera de alguma década amarelada, estávamos a rir de coisas adolescentementes banais, e o sabor da liberdade era pior que um vício qualquer. Debaixo de uma árvore, sob a luz do sol a arder qualquer vida terrestre, encontrávamos preguiçosos a suspirar sobre o que poderíamos fazer para matar o tédio. Nenhuma solução a não ser dormir.
Virando páginas e mais páginas, percorrendo as folhas já arrancadas do calendário, as vidas são eternos moinhos que se chocam e transformam-se em uma mistura homogênea. Assim, eu expliquei para o meu filho a origem da terra. Talvez assim deva ser a origem do amor, essa traiçoeira matéria abstrata que nos corrói doloridamente gostoso por dentro. Ah, o doce amor... Quem me deras ser poeta para retratar as peripécias dos bobos apaixonados, ou a forma poética das cartas dos desiludidos de amor. Pena que minha morosidade não permite.
As horas estão a passar, e os dias a diminuir minhas energias. Já não aguento mais o sol quente, meus joelhos não me permitem correr, minha eterna namorada está concretizada no lado direito vazio da cama. Não reconheço mais todos os rostos das fotos antigas. Já não me lembro do nome do meu poeta favorito. Estou a perder os poucos fios da minha cabeça. Meus olhos estão brancos como o de um cachorro velho.
A gente vai ficando velho, caduco, e com o passar do tempo, experientes, até chegar o momento da pilha do relógio acabar.