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Sustenido

Estava a andar pela rua, cujo nome é o mesmo da sua cidade. A chuva forte que caía, não me impedia de fumar estrategicamente o cigarro branco. Já era noite, e as casas começavam aos poucos a acender as lâmpadas amareladas, mesmo que umas hesitavam de vergonha o seu brilhar.
Num bairro deserto caminhei, dando a mínima para os buracos do asfalto que agora estavam completos de uma água marrom. Em um deles pisei em falso, molhando minha calça e meus pés, o que em um milésimo de segundos pareceu engraçado para quem antes tinha humor. Eu não sorri, muito menos praguejei alguma palavra que na minha infância levaria um tapa na boca, simplesmente chacoalhei as pernas como um cachorro e segui.
(Cantarolava aquela música, que tu me perguntaras se eu sabia de cor. Menti dizendo que não, pois tinha vergonha de mostrar o meu desafinado tom, mas o passar das horas foi me deixando desnuda de vergonha e assim eu comecei a cantar, dentro do ritmo e sem harmonia. Ríamos na mesma sintonia das nossas vozes se entrelaçando como quatro pernas amantes. Ríamos de um momento que sabíamos que seria digno de recordar. E assim, se deu.)  Fui cantando pela rua e remetendo em minha mente essa imagem sonora que nunca canso de ouvir, até a razão pedir para parar. Todos que passavam juravam que eu era uma espécie de demente, que estava a fumar desnuda musicalmente, sem vergonha de se molhar. Estava num grau de ombros acima do normal. Até eu estranhei, esse meu eu.
Continuava a dar voltas e voltas em ruelas que já havia passado, e o cheiro de gordura das casas estava a me enjoar. Andei procurando o que eu sabia que nunca iria encontrar aqui, nesse espaço geográfico, mas eu, tola, não perdia as esperanças. Passei novamente pela placa com o nome de tua cidade, e ao lado dela permaneci por um bom tempo. Fechei os olhos e deixei a chuva me penetrar, se diluindo entre o chorinho que insistia em sair de mim, e entre o riso falso que saltara em minha cara. Nem eu sei porque sorria, muito menos porque estava parada ao lado de uma placa, debaixo de uma chuva cortante. De olhos fechados eu encontrei o que  procurava, e sentia o cheiro que tantas vezes grudou em minha roupa. Estávamos juntos abraçados no colchão azul, a gargalhar pelas cócegas feitas por nossos pés. Assim eu sorria  ao sentir que  estava onde deveria realmente estar, e que a vida, por mais amarela que seja, é injusta com os que morrem de saudade de quem o coração não pode esquecer.

Alegoria dos significantes

Angela Batista, 19. Tenho todos os anos do mundo, ao qual não sinto necessidade de revelar. Aprecio sorrir para um gato na rua, molhar-me junto com meus cadernos na chuva, rir quando é para chorar e sofrer quando tenho que sofrer. A arbitrariedade da vida me fascina, assim como o cheiro dos pés de laranjeiras. Sem rodeios, sem discurso poético, seja bem vindo, as minhas alegorias.

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