Antes, tudo era matéria
Forma viva do real
Mas seus olhos desafiaram a física
E até a ciência
E tudo em que eu cri até então
Não tinha mais razão
Nem tampouco fé
Quando me olhou
Com olhos de quem doma
Tudo que era matéria
Se desfez em desmatéria
E tomou a branda e dura forma da inexistência
Até o que era
Tornou-se não ser
E o que vivia
Tornou-se, não morte
Mas desvivência
Do verbo desviver
Mais ou menos como eu seria sem você
Tudo desviveria
Casa, rua e fábrica
Automóvel, televisão,
Calças e sapatos,
Mesas, cadeiras,
Prédio e avião
Até o construção
Desviveria no toca disco
Fazendo desviver o som
Desconstruindo tudo ao redor
Propagando em meus ouvidos o silencio
O eterno silencio da desvivência