Fundo, fundo. Era fundo o poço onde se enfiara. Fundo e escuro. Espesso. Viscoço.
O que eu tinha se resumira naquele poço. Estava lá, no meio de cardumes canibais que mordiam e sugavam a matéria viva que já dava indícios de desviver. Desvivência era a minha, de observar aquela maré escura que se alastrava naquele poço e não poder pular. Eu não podia, nem tu podias, desconstruir as amarras que nos prendia, e com muito penar eu sentia que eu afundava também, mas afundava ao saber que não deixavas meu corpo agir.
Tivera eu a ideia de lançar-me ao vazio, onde habitava sua substância. Fui caindo propositalmente naquela escuridão, naquele mar de gritos silenciosos que deixaras louco a metade minha que eu procurava. Cavei buracos, andei desertos, percorri a nado o frio só pra chegar onde tu se encontravas, e lá o achei, bichinho que amo por inteiro.Tu, figura romântica, és o meu pão. És a lamparina da cozinha. És o cobertor que me colore. És chão e luz. Nada do que irá dizer para que eu parta, eu ouvirei. Mesmo se varrer meus pés eu ficarei. Se me ignorar, permanecerei encostada na parede fria, mas dali não sairei sem ti.
Ninguem entende... Nem tu, meu doce amor. Duas substâncias juntas, se resolvem melhor. Não sou boba por pular em um poço, nem burra por não medir a catástrofe. Sou boba por amar. E quero morrer bobeando.