Declaro-vos amor, mulheres de minha vida, cuja as mãos fortes e delicadas construíram o meu espaço. Declaro-te amor, operária. Declaro-te amor, empregada doméstica. Declaro-te amor, professora. Declaro-vos amor, secretárias, engenheiras, mulheres de casa, artesãs. Se Pablo Neruda não as inventou, é porque a história prometeu uma poesia única e eterna, que fosse recitada todos os dias em forma de pernas, seios, bocas e cabelos e que em cada passo dado o soar das calças e o bater dos saltos ecoassem um soneto de amor.
Declaro amor as mulheres que nunca conheci a face que há muito tempo, com seus jalecos cinzas, lutaram como leões pela liberdade e igualdade de todas as flores que brotaram e que ainda iriam desabrochar. Declaro amor as musas poéticas. Declaro amor às mulheres não reconhecidas em seus respectivos trabalhos. Declaro amor às rosas agredidas. Declaro amor às heroínas que se alimentam do amor dos filhos enquanto os filhos se alimentam com o pouco de arroz que restou. Declaro amor à irmã que ensinou ao diamante da casa seus primeiros passos. Declaro amor à mãe que nunca dorme enquanto não ouve o barulho da chave da prole abrindo a porta depois de uma noite de regalias. Declaro amor as mulheres da vida e aos que eram homens e que hoje são mulheres e que buscam respeito por tal decisão.
São tantas mulheres, como diz Martinho da Vila;
cabeças e desequilibradas, mulheres confusas, de guerra e de paz que eu passaria milênios descrevendo as cores do mundo. Deixa disso, mulher! Nenhuma data é necessária para recordarmos vossa, pois todos nós somos mulheres. Nós respiramos a mulher. Nós vivemos a mulher. Nós sambamos a mulher. Nós cantamos a mulher. Existimos pela mulher.
Eu sou mulher.