Aparecestes para mim, tão buarquizado que não resisti quando me olhastes pela primeira vez, e assim eu deixei que invadisses minha morada e que ali se instalasse junto com meus vestidos. Era só meu, o cômodo cedido em que moro desde os dezenove, mas tu chegastes tão adoniranizado que não hesitei em juntar teu chinelo junto ao meu de correia azul. Fui aos poucos mudando o aspecto das paredes que antes mofavam pela falta de esmero por minha parte, e senti vergonha de te receber em tal estado, e assim, pintei tudo de uma nota só para não causar tão má impressão ao camarada que ao longe sussurrava algo em francês.
Em pouco dias aquele cômodo adquirira um puxadinho no fundo, para suportar todas as muambas que trouxera o viajante caetanizado, mas não me importei em quebrar minhas unhas ao manusear os tijolos para a construção, mesmo que a dor fosse latejante; porém não há dor que vença os descansos dos meus olhos ao ver-te dormir. Para dormires, dividi contigo meus lençóis amarrotados e meu colchão que muitos anos permanecera com o lado esquerdo a preencher, e durante muitas noites ficamos acordados reclamando e suando de verão ou de amor, mas isso não vem em questão.
Meses se passaram e suas camisas já se encontraram misturadas com minhas saias, a cachaça se encontrara em cima da geladeira, nossas toalhas se cruzavam cruas. Nossos pés, já namoravam um tango argentino; nossas bocas, se cortejavam; suas mãos e as minhas e nossos corações sambavam uma mistura de todas as poesias que lera enquanto olhava-me ao som dos sabiás.
Em um ano tu me buarquizou, me adoniranizou e me caetanizou, e eu, como uma boa drummondiana que sou, permiti.