Estão estourando purpurinas divinas no céu, e hoje todos se vestem como anjos caídos. Cada um procura no guarda-roupa seu melhor sorriso e buscam debaixo da cama receitas para ganhar mais dinheiro. Há uma mesa farta de frutas supersticiosas que as pessoas se servem em busca de uma vida melhor. Minha irmã, há três horas atrás procurava obcecadamente uma cor para trazer novos amores em sua vida. E eu, observava calado e com desdém aquela mesa, aqueles sorrisos, aquelas purpurinas e a minha irmã.
Saí em busca de um local onde eu ficaria ali, deitado, esperando a minha renovação espiritual, foi quando do nada, eu comecei a rir de mim mesmo, ao lembrar de quão bobo eu era, ao me assemelhar às pessoas que estavam em minha casa.
Meus olhos estavam fatigados de tantas promessas vazias. Fazia dias que não dormia, e que eu não respirava bem. Observava páginas e mais páginas de palavras encharcadas de suor e de melancolia, de ideologias e de riquezas, mas aquilo tudo, até para mim, que viveu menos que um cachorro, sabia que era ouro de tolo. E isso é um saco.
Antigamente, tudo era mais rosado. As vezes a gente sente inveja de nós mesmos quando deparamos com nossas histórias de criança. Era tudo tão quente em uma noite de tormentas e trovoadas. As cobertas espalhadas pela cama era o suficiente para aquecer os corações puros e para protegê-los dos demônios imaginários. A doce memória das imaginações veem em minha mente como um amuleto de proteção contra os meus medos. É tudo questão de tempo, era o que uma velha senhora dizia, enquanto eu chorava pela vergonha de andar pelas colinas da rua sobre quatro rodinhas. A sensação de liberdade era tão doce que eu me permitia ser preenchido por formigas coloridas, até que elas fizessem cócegas, enquanto passassem pelo meu rosto.Talvez eu devesse procurar uma maneira para voltar ao tempo bom, quando as ruas eram preenchidas de flores das laranjeiras, mas acredito que algo melhor possa ser feito para me livrar dessa falsidade adulta. Preciso me eternizar naquele laranjal.