Eu poderia escrever um livro sobre todas as alegorias de minha vida. Poderia escolher o formato e tom poético. Dentre as paletas de amostra, ficaria em dúvida se o enredo teria forma e cor de um conto, romance ou soneto. Eu poderia na loja da vida tentar negociar algumas páginas ou vender alguns rascunhos para outros sobreviverem por mais um dia. Eu queria ter o poder das palavras para desenhar com giz de cera a capa dos meus desastres. Eu queria.
Existem páginas que há muito tempo eu rasguei por não ter fôlego de lê-las. Algumas eu mantive para lembrar dos sorrisos flambados que já dei subindo as montanhas. Outras, não são possíveis arrancá-las pois já se enraizaram em minha terra fértil, e dessa maneira, as rego para que novos brotos surtam para eu esculturar um sol azul.
Já escrevi livros de duzentas páginas vazias, entretanto, o que mais doeu a minha alma foi aquele de uma página, cuja única palavra escrita fora "saudade", e através dela, dessa palavra ensolarada, um projetor de imagens, cores, cheiros e sons se formam na parede frente a minha cama, fazendo-me assistir a tudo aquilo que um dia foi meu. É saudade de rostos. De paredes de recados. De cabelos com cheiros de maresia. De abraços equivalentes a café quente. Do despertar de um dia a dois. Das promessas e construções de uma casa de sonhos. Do relógio feito à mão. É saudades do amor ou apenas saudade de poder definir a quantidade necessária de borboletas? As borboletas voaram e aqui eu fiquei, com os sorrisos moldados a partir das lembranças de uma vida, que eu ainda, felizmente, ainda não terminei de escrever.