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O quebra-cabeça


Inocente, monstro ou culpado? Não sei, ainda estou a decidir meu julgamento. Para falar a verdade, não me importo com a minha decisão, eu apenas fiz o que deveria ser feito. Considero-me um homem de bom coração, conservador e de bons costumes, oriundo de uma família tradicional da Barcelona. Tenho meu emprego, minha família e meus cães, ou pelo menos tinha. Tenho tudo o que eu desejo, e isso é bom. Trapacear para alcançar o topo da montanha é bom também.
Possuo trinta e três anos de idade, mas tenho aparência de dezoito. As adolescentes quando me veem, se molham toda, como um sorvetinho derretido. Umas, começam a enrolar o cabelo, outras cruzam as pernas sensualmente como uma atriz famigerada de um filme antigo, e isso tudo, os sorrisos sedutores, o alisar as coxas, o lamber dos lábios, sempre irritou e foram motivos de brigas entre eu e Antonieta. Minha esposa.
Antonieta tinha uma bela face, dona de olhos amendoados que me hipnotizaram quando a vi pela primeira vez em uma estação de metrô. Ah, como sinto falta de Antonieta... Do seu andar suave pelas escadas, dos seus gritos por todas as vezes que eu deixava a casa suja de neve, das suas carícias durante a noite, como quem deseja algo para si. Eu a amei incondicionalmente, como um adolescente ama seu ídolo durante a juventude, mas, devido esse grande amor, eu fiz a maior besteira de minha vida.
Antonieta também atraía olhares masculinos, devida sua beleza e seu bom caráter, e isso me deixava descontrolado. Eu sabia que ela gostava, eu sabia. Aquilo a fazia se sentir mais mulher, deixava-a com ar de superioridade, de desejo, a fervia de uma maneira que nem eu tinha forças para apagar suas chamas. Eu era, ou melhor, eu sou desesperadamente apaixonada por ela, e esse amor me transformou em um servo delinquente. Eu não aguentava mais esses olhares para Nieta, eu estava surtando, pois eu sabia que ela tinha outro. É? É!!! Sim, ela tinha outro que eu sei. Ela era muito gentil com o mordomo da nossa casa, sempre tão doce e simpática com aquele empregadinho idoso. Eu sei! Agora tudo faz sentido... Era ele. Como ela pode? Como pode! Ela mereceu, eu fiz o que era para ser feito. Ela mereceu. E ele também.
Numa noite de setembro de 1962, eu planejei tudo perfeitamente. Observei-a o dia inteiro, e tudo o que eu sentia quando a olhava era de realizar logo o meu plano. Estava latente em meus olhos aquele desejo, mas o amor louco que eu sentia por Nieta, gritava dentro da minha cabeça para esquecer-me de tudo. Era a razão me cutucando, mas, ignorei-a.
Eu passei sua melhor roupa, fiz o seu prato favorito, a servi como um escravo, e ela estranhou toda essa atitude, mas sempre amorosa para não me deixar aborrecido. Essa doçura, esse carinho pelos subalternos, esse comunismo de outra era... Isso tudo me deixou louco, pois ela era boa demais, e ser bom demais atrai pessoas, principalmente homens galantes. Lembrar-me das qualidades de Nieta, me deu coragem e ódio para concretizar minha tragédia grega e assim, fui à cozinha e preparei um chá batizado. Ela bebeu satisfeita e me deu um beijo na testa como forma de agradecimento pelos meus gestos cavalheirescos do dia. Quem estava satisfeito era eu, pois ela mal sabia o que a esperava...
Nieta começou a reclamar que sentia muito sono, depois começou a dizer que seu corpo formigava. Está fazendo efeito... FINALMENTE! Está fazendo efeito... Ela dormiu naquele instante, enquanto falava como uma velha rabugenta, e eu, rapidamente a peguei no colo e levei-a para o porão. Lá estavam meus utensílios básicos, então dei início a minha prova de amor. Ela não acordaria nunca, aquela droga é semelhante à morte seguida da ressurreição, mas sei que ela me ouvia e que sentirias tudo, e isso era o que me deixava excitado e em êxtase.
Depois de tirar o seu vestido e a amarrar em uma maca, comecei a pontilhar o teu corpo inteiro, aquilo deixou de ser uma vingança para se transformar em uma fantasia sexual odiosa, e eu estava todo arrepiado com essa deliciosa experiência. Nieta estava deitada, parecia que dormia como um anjo, entretanto, eu sentia que ela estava com medo, então, para dissipá-lo coloquei em um toca fita velho, um tape com sinfonias de Chopin para acalmá-la, então dei início à brincadeira. Peguei uma serra automática, essas, para cortar superfícies duras. Comecei o processo de baixo para cima. Primeiro, serrei seus dedos, depois, os pés, o joelho... Quanto sangue... Quanto sangue com cheiro de flores fervidas. Aquele cheiro adentrou em minhas narinas e me deixou dopado, como uma droga forte. Eu sentia algo aqui embaixo subir, e eu estava gostando disso. Nieta não se mexia, não gritava, e pior, nem acordou. Mas eu notei que de seus olhos escorriam lágrimas cristalinas, e eu, para acalmá-la dizia que tudo iria ficar bem, daqui algumas horas. 
Fui jogando os pedaços de meu amor em um tanque cor-de-rosa cheio de formol, para que depois eu decidisse o que fazer com teu quebra-cabeça. Eu a cortava lentamente, sem pressa e sem desespero. Em cada traço, eu escrevi em cima o nome daquele maldito mordomo, seu amante idoso. Eu comecei a ficar raivoso, ficar histérico e fiz com que ela sentisse mais dor. Imergi a serra no álcool, e dei início ao corte. Ela abriu os olhos. Aqueles olhos castanhos me fitavam pedindo que parasse, mas eu não podia mais. E assim, durou por 4 horas esse jogo. Nesse tempo eu cortei seu ventre, seus seios, seus braços até chegar a sua cabeça. Depois de colocar tudo no tanque com formol, tirei a roupa suja e fui dormir. 
Na manhã seguinte, estava obcecado em botar em prática meu plano contra aquele velho, e assim, o fiz. Só sei que quando estava preste a matá-lo, ele confessou-me que era meu pai (aquele que tinha me abandonado aos oito anos de idade), e que trabalhar em minha casa seria uma das formas de ele se aproximar de mim, e que Nieta apenas estava o ajudando a criar coragem para contar-me a verdade. O velho gritava, implorava perdão e pedia que eu o matasse logo, pois não merecia mais viver. Ele gritava isso toda hora, como um disco furado, e eu não sabia pensar em outra coisa, a não ser em Nieta. Nieta, meu amor, por que eu fiz isso? Meu Deus, o que meu ciúme doentio causou! Eu a matei, eu a matei e me senti bem! Eu sou um monstro meu Deus! Nieta, Nieta! Deixei meu pai amarrado e fui correndo para o porão. Destampei o tanque e comecei a chorar. Eu chorava pela a desgraça que fiz a sangue frio, eu chorava por ter matado a mulher dos meus sonhos, e ela ainda estava viva enquanto a cortava como um açougueiro... Enquanto surtava, veio umas hipóteses em minha mente. Sim, poderia dar certo, tinha que dar certo...
Dei início a minha ideia, recolhendo os pedaços de Nieta do tanque rosa. Joguei tudo no chão e comecei a costurar parte por parte e isso foi um processo árduo e cansativo. Fui terminar o quebra-cabeça na oitava noite de outubro. Quando costurei a última orelha e coloquei seu vestido, eu dei um sorriso quente e meu coração voltou à vida. Estava esperando ansiosamente ela levantar do chão e me perdoar desse erro maldito, mas isso não aconteceu. Nieta estava cinza como uma carne cozida, eu não a reconheci. Quem era aquela? Por que ela não levanta? Assim, somente dessa maneira, eu dei conta que tinha matado a razão da minha vida. Eu libertei o velho, e ele saiu correndo depois de eu mostrar o que eu fiz por causa dele. Sentei no sofá e me auto flagelei para tentar me livrar da culpa, mas, depois comecei a pensar. Os pensamentos tomaram conta da minha cabeça, e tudo começou a fazer sentido novamente... Sim, é. É verdade, talvez seja verdade... Pois sim, isso poderia ser evitado... Eu concluí que se Nieta tivesse me contado sobre meu pai antes, eu não teria feito nada disso. É, a culpa foi dela mesmo. Somente dela.
Apaguei a luz do porão. Fiz um chá e dormi tranquilamente abraçado. Com o quebra-cabeça de Nieta.


Alegoria dos significantes

Angela Batista, 19. Tenho todos os anos do mundo, ao qual não sinto necessidade de revelar. Aprecio sorrir para um gato na rua, molhar-me junto com meus cadernos na chuva, rir quando é para chorar e sofrer quando tenho que sofrer. A arbitrariedade da vida me fascina, assim como o cheiro dos pés de laranjeiras. Sem rodeios, sem discurso poético, seja bem vindo, as minhas alegorias.

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