Eu estive, por um longo tempo da minha vida, caminhando sozinha em uma estrada de grandes e porosas pedras, sempre com medo de ser engolida pelo sol, ou de me afogar em meio à escuridão. Comportava-me com toda a fragilidade da rosa, como uma garotinha com medo de uma inofensiva lagartixa de banheiro, ou como um moleque que perdeu seu carrinho favorito, mas tudo isso, de certa forma, representava a minha sensibilidade diante do mundo cruel. Esse mundo cruel que nos cospe.
Um dia, um dia desses com bombardeios solares a nos tocar, eu estava a morrer de desidratação. Não sentia mais minhas mãos, minha face, meus pés. Meu coração estava prestes a parar, e seria ali mesmo que minha alma seria sepultada sem nenhum discurso. Estava preparada para morrer no vazio dos copos caramelizados. Estava pronta a sentir a dor dos pés ao pisar em cacos de vidro verdes jogados no sambódromo. Estava a me decompor ao relento do desamor. Porém, quando eu estava a dar meu último suspiro terreno, chegastes tu para capturar de volta a minha alma que já estava a bailar no céu dos falecidos, e foi com seu toque que meu peito se encheu de ar, e de um sufoco com gosto de morangos. A ti eu dei minhas mãos para me guiar de volta para casa, e você me conduziu com toda a delicadeza de um verdadeiro cavalheiro.
Os dias passaram e eu comecei a lhe mostrar todos os cômodos da minha casa. Eu sabia que a sala de estar era teu lugar favorito, então, sempre te pegava pelas mãos e lhe arrastava lá para que enquanto nos delírios de nossa mente, eu lhe oferecer um copo de leite morto da fonte do Olimpo para tu suspirares por mim. Eu estava feliz, ali, naquele cômodo vazio e pequeno. Acreditava que ali, você ficaria para sempre, esquentando como um aquecedor no inverno, todas as artérias do meu ser. Eu confiava a chave da minha casa em suas mãos, e só você as possuía. Só você. Eu começava a acreditar, depois de alguns dias de convivência, que eu estava renascendo no meio daquele bombardeio nuclear-solar. Eu estava amando você.
Não sabia exatamente explicar como aquilo funcionava, mas é algo parecido como uma escola de samba: para sair som, necessita-se de instrumentos; para seduzir, as mocinhas sambistas; para encantar, enredo; para funcionar, união; para fascinar, fantasias. É um exemplo bobo, mas só queria dizer que o meu coração se assemelha a um tambor dessas escolas quando te avisto, e no momento em que te beijo, parece que todos do sambódromo imaginário cantam um soneto de amor do Neruda.
A gente acredita, que amores como esse só acontecem uma vez na vida, e que quando eles chegam, ficarão para sempre em nosso apartamento, deixando rastros da existência em cada cômodo do lar. A gente acredita que toda noite, um disputará quem fará cafuné até o outro dormir, ou quem escolherá os filmes da sessão de domingo. Eu acreditava que o amor, quando chegasse, transbordaria toda a minha existência. Só não cogitei a ideia de que quando o amor acaba, ele simplesmente, acaba.
Estou aqui, na minha cama vazia, a abraçar meu travesseiro imaginando ser teu corpo. Minhas lágrimas estão a derreter nossas fotos. A minha mente insiste em projetar a primeira vez em que você dirigiu a palavra para mim, e eu me queimei toda de felicidade ao saber que me desejavas. Tu estavas bêbado naquela noite fresca de setembro, e eu estava do outro lado do computador a lamentar meus dias. Chegastes dizendo cantadas baratas, a qual eu ri muito, mas que ao mesmo tempo, achava um encanto o seu jeito de menino das pipas. Fiquei remoendo aquela conversa na minha mente durante toda noite, e só assim, eu pude perceber quão bom foi nossos pequenos suspiros de amor. Se é que houve amor.
Eu nunca te tive, isso é fato, e você sabe muito bem disso. Sua vida de cão andarilho e de alcoólatra nunca permitiu que eu chegasse de mansinho e habitasse sua sala de estar, como eu permiti que tu fizestes comigo. A sua necessidade de liberdade extrema, me aprisionou na lavanderia escura, e lá, você me deixou, dias e noites, só me libertando no momento em que se sentias só. E eu, cachorra fiel, corria ao seu encontro com um osso na boca, a espera de carinho e amor, mas sempre ciente que a qualquer momento, você colocaria em mim aquela maldita coleira de bronze. Foi assim, durante horas, dias, meses. Fiquei sempre a sua espera, durante um bom tempo, e você nunca mais entrou por aquela porta, e ali, eu morri por falta de alimento, ali, jazi por falta de amor, e não demorou muito para livrar-se de meu corpo. Você queria sua casa sem intrusos. Eu, seu antigo amor, era uma intrusa em sua sala de metal.
Hoje descobri que um ser humano pode ter tudo em mãos, mas em apenas um milésimo de segundo, o vento pode levar tudo embora. O que era vivo, murchou. O que me esquentava, virou gelo. O amor, simplesmente o teu, acabou. O meu coração, (in)felizmente ainda continua a pulsar todos os dias por ti, e dessa maneira, eu, poeta dos iludidos continuo a morrer, nessa estrada seca, de (des)amor.