Eu não preciso de um dia do ano para comemorar a minha cor. Eu não preciso de uma data específica para relembrar a humanidade, das atrocidades nas quais fizeram com vários povos de minha cor. O fato já grita por si, a história não permitirá que o fato seja apagado. A minha própria existência não deixará que esse fato seja esquecido, porque em minhas veias perpassa sangue de reis, de rainhas. No meu sangue está miscigenado a história de Luther King, Malcon X, Zumbi dos Palmares. Tia Eva.
Em todo o meu corpo, em cada grão de melanina da minha pele, a história de meus antepassados escravizados eu carrego pelas ruas de minha cidade. Eu não necessito de um dia para relembrar quem eu sou. Eu não necessito de um dia para bater no peito e dizer que me orgulho de ter a cor da terra que frutifica. Eu faço isso todos os dias. Minha alma sabe e reconhece esse valor de cor azul anil.
Eu defendo minhas ideias como uma leoa que defende sua prole. A igualdade começa a partir do momento em que não se existe um dia para cada etnia. Nós não precisamos de dia do índio, dia do branco, dia do amarelo, dia do negro. Se somos todos filhos do mesmo pai, se somos todos irmãos, se nascemos da mesma terra e dessa terra voltaremos para virarmos pó, qual a necessidade de destacar um dia para uma raça? Um dia a mais ou um dia a menos não irá amenizar os estralos dos chicotes, não apagará as lágrimas das mães ao serem separadas de seus filhos. Um dia no ano não apagará da memória da história os cabelos raspados para nossos irmãos não se reconhecerem entre si, nem nos fará esquecer de muitos irmãos que morreram durante longas viagens para viverem em condições animalescas. Um dia a mais ou um dia a menos não limpará o sangue vivo e de cheiro forte do tronco. Nem aliviará a culpa perante a história.
As fatalidades de nossos irmãos nunca serão guardadas em uma gaveta para ser esquecidas. Não se depender de mim. Porém, em meu corpo se manifesta a roda de capoeira, os sorrisos das negras dançando, sensualizando com seus vestidos de algodão, a partir do simples gesto de erguer a barra da saia com suas mãos para não pisarem nas mesmas. Como isso seduzia os sinhô que observava da janela do casarão... Em meu corpo se manifesta as mãos ágeis que preparavam o almoço para a senzala. Feião preto, resto de carnes. Nossa famosa feijoada. Em meu corpo se manifesta a força dos homens, a coragem de reis, a honra semelhante a dos gregos. Eu sou o negro, o branco, o mulato, o amarelo, o indígena. Eu sou a história. Eu sou humana, e não necessito do 20 de novembro, porque todos os dias, eu sou 20 de novembro.