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Sonho estético de linguística geral



Tive uns sonhos estranhos durante um bom tempo de minha vida, nos quais não entendia muito bem, porém, depois de certas revelações acerca desses sonhos, eu criei uma nova perspectiva de vida.
Eu não sabia o que eles significavam para mim. Não sabia como entendê-los, como decifrá-los, e isso queimava a minha mente todas as vezes que eu pensava no mesmo. Fazia dias que eu não me concentrava, nem desfrutava do meu café da manhã verde, nem possuía vontade de ler minha coluna favorita de crônicas do jornal que eu adquiria na padaria, junto com o meu ritualístico café quente. Mas um dia, um dia que eu lembro como se fosse a três horas atrás, eu decidi tomar uma atitude, para que minhas noites sonolentas e ociosas voltassem com toda a força, pois tudo o que eu queria, era deleitar em minha cama e imaginar o vazio e os pisca-pisca que a minha mente construía, sempre antes de cair em sono profundo. Porém, sem rodeios e sem rebuscamento, sinto a necessidade de compartilhar esse fato que mudou a minha existência, a minha essência e a minha real função nessa massa dura que eu denomino de Terra.
Enquanto eu esperava o ônibus de todos os desastrosos dias, passou por mim uma moça, que inclusive era muito bela, e a mesma pronunciou uma frase muito distinta para alguém, que estava do outro lado do celular: "A linguagem é uma atividade humana.". A linguagem é uma atividade humana? Que atividade é essa, pensei rapidamente, seguido de um palavrão. Eu nunca vi em nenhum programa de televisão coisas sobre essa atividade, e em todas as academias que frequentei, nunca soube que existia um exercício físico que se chamava linguagem. E essa frase começou a me gerar tantas dúvidas, dúvidas cruéis acerca do que era linguagem. Cheguei em casa exausto, louco para dormir, mas antes, eu necessitava acender meu último cigarro da carteira (outro ritual), para dormir tranquilamente. Quando deitei-me na cama, dei um sorriso sarcástico e frio, pensando comigo mesmo de que eu não necessito dessa tal de linguagem.
Os sonhos começaram. Um homem, meio desgastado do tempo, me dizia umas palavras bem claras. Da sua boca saía discursos acerca da história da mãe da linguagem, e da língua. Creio que essa mãe se chame Linguística, pois a mesma é a ciência que investiga os fenômenos da linguagem e que constitui um sistema de signos, que convencionam a nossa comunicação, e que dentro dela, ocorre os variados modos de fala, ou seja, as variações linguísticas. Soube que o termo Linguística foi empregado pela primeira vez em meados do século XIX. Esse homem, de cabelos grisalhos e de grande bigode, falou-me que o estudo da famigerada linguagem não era recente, e que há muito tempo atrás, mais do que eu possa imaginar, certos estudiosos já a tinha como objeto de estudo, ao lado da língua. Nesse sonho, soube que a linguagem é uma atividade ampla, se realiza através da linguagem verbal e não verbal e que a carregamos desde sempre conosco, ou seja, a senhora linguagem é internalizada a nós. Interna a mim? Que estranho, mas faz sentido, já que eu sou um ser histórico, e que a linguagem é iminente a mim, e que sem a mesma, eu não existiria, nem o outro, nem você. A linguagem abrange todas as manifestações humanas, é criadora, ela cobre o mundo, o deixa quente e faz funcionar como um cobertor elétrico. Ela me torna um ser falante, um ser dotado de discursos já proferidos antes por alguém, ela permite minha existência, me apropria, me concede consciência, exterioriza, concretiza e materializa minhas ideias, contagia-me com sua essência que é o falar com o outro. Depois de eu me apropriar de todas essas informações, o senhor abraçou-me e sussurrou em meus ouvidos algumas palavras, nas quais não lembro no momento. Acordei confuso, porém, extasiado.
Na décima quinta noite de uma doce angústia filosófica, o senhor de bigode voltou a me visitar, e agora, acompanhado de um companheiro fumante de grandes óculos. Nessa noite, o convidado para minha festa mental falou mais que o bigodudo, porém, meu cérebro estava sedento de mais informações, e os dois senhores, mataram minha sede. Minha língua estava seca, e eles molharam-na. Hoje eu soube uma nova concepção de língua, diferentemente da ideia que eu possuía de que língua servia somente para lamber, beijar, mordê-la acidentalmente. Descobri outra língua, e essa, é uma máquina de discursos constituída de uma técnica histórica convencionada, que se permite identificar em qual comunidade histórica está inserido um determinado sujeito e que também, a doce língua, constitui um sistema de regras que organiza as comunidades para que ocorra a comunicação e a tua compreensão. A língua é a língua portuguesa, francesa, espanhola, italiana, alemã, inglesa, guarani... Ah língua, língua minha. Tantas particularidades sua que eu desconhecia... Como nunca havia passado em minha mente, que tu és um produto social? Como eu nunca tinha pensado antes, que desde cedo eu já procurava dominar esse bichinho que eu carrego dentro de mim? Assim como um garotinho, que desde pequenino já sabe produzir sequencias gramaticais de sua língua. Pensando melhor, agora eu compreendo o sentido da linguagem.
Eu procurei uma senhora, que possui um dom bem distinto e fabuloso, e acreditei que ela daria uma resposta para essas minhas viagens psicodélicas. Contei à ela todos esses sonhos, ou debates filosóficos. Contei para ela dos senhores bigodudos, da língua, da linguagem, da minha relação agridoce com essas concepções. E ela, sempre muito curiosa, queria saber mais e mais. Contei à ela que nas últimas invasões de meu sono, os senhores debateram acerca da fala. Eu falo, tu falas, ele fala. Através de minha fala eu realizo concretamente a produção da língua, ou seja, a minha (tua) fala é a produção oral da minha língua, de outras línguas. Enquanto os senhores conversavam, eu ouvi que a fala é individual, social e carregada de ideologias, a partir do olhar particular de uma determinada pessoa. Através dela, os indivíduos escolherão elementos que lhes serão propícios da língua para se expressarem, atendendo a necessidade de cada um de acordo com a situação em que o falante está inserido, ou grupo social, ou de acordo com suas emoções. Através desse debate entre os dois senhores, compreendi que dentro da língua existe uma enorme diversidade de maneiras de falar, ou seja, diversos níveis de fala, que nesse contexto, eu considero a validade das variações linguísticas, que fazem parte dessa esfera constituinte da linguagem. As variações acontecem de acordo com a faixa etária, região, sexo, nível social e constituem diferenças na maneira de realizar a língua, seja na oralidade, seja na escrita. Eu costumo falar sem preocupação gramaticais na maioria do tempo, mas, quando assumo minha função de funcionário público, eu preciso falar o mais correto possível. Quando estou em minha casa, eu digo minhas gírias, o meu a gente vai viaja, to na broca, comprei uns livro. Eu sinto essa liberdade quando estou em um ambiente mais descontraído. Na empresa, costumo dizer, nós vamos partir de viajem, estou com fome, comprei uns livros. Eu possuo a capacidade de moldar a língua dependendo da ocasião que estou, e isso é fantástico...
 Enquanto eu filosofava sobre a linguagem e seus aspectos, os dois senhores sorriam para mim. Um deles caminhou em minha direção e disse em meus ouvidos: você está pronto. Pronto para que eu perguntei, porém não obtive resposta. O velho de grandes óculos me abraçou como quem abraça um filho, e me disse que eu sou o fruto da linguagem, e depois de muito tempo, de várias noites de sono compartilhadas, eles disseram-me seus nomes: O senhor de grande bigode se chamava Ferdinand Saussure, e o senhor simpático fumante de grandes óculos, se chamava Mikahil Bakhtin. Isso era uma despedida? Eu não estava pronto para me despedir, eu queria saber mais e mais, pois minha alma estava viciada nesse saber. Mas eu não podia impedi-los de partir. Enquanto eu me lamentava, surgiu um grande pássaro dourado repleto de palavras, de signos, de ideologias em suas asas, e levou os dois visitantes da minha mente para um mundo repleto de discursos, no qual um dia eu hei de morar.
A velha vidente, ouvindo meu relato ficou extasiada, como se já soubesse o que dizer para mim. Rápida, ela jogou umas cartas, acendeu umas velas e leu minha mão e disse-me que cada um possui um dom. O meu, ela disse, é de prever o futuro. De uns, é salvar vidas, de outro é ensinar a ser mais humano. Não sei explicar como esses dois teóricos da linguística foram parar em sua mente, mas sei que eles construíram um mundo de ideologias e de sentido dentro de ti. Você, meu jovem, seguirá, cedo ou tarde tudo o que eles te ensinaram. Você foi escolhido para dominar esse dom, que é o dom de ensinar linguística.
Sem rodeios, hoje sou um homem que descobri o caminho de casa novamente. Tenho como vizinhos Saussure, Bakhtin e tantos outros companheiros de Linguística. Hoje sou feliz ensinando pessoas, hoje sou feliz trabalhando com a educação. Depois de quinze anos que esses sonhos aconteceram, eu tenho uma caixa de 20 anos de conhecimento, de amizade, de relação de amor. Hoje, com todos os anos do mundo, eu descobri meu sentido no mundo. Eu sou um linguista.


Alegoria dos significantes

Angela Batista, 19. Tenho todos os anos do mundo, ao qual não sinto necessidade de revelar. Aprecio sorrir para um gato na rua, molhar-me junto com meus cadernos na chuva, rir quando é para chorar e sofrer quando tenho que sofrer. A arbitrariedade da vida me fascina, assim como o cheiro dos pés de laranjeiras. Sem rodeios, sem discurso poético, seja bem vindo, as minhas alegorias.

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