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Manifesto ao Partido Consumista

De nada vale todo o ouro que reluz.

Enraizada naquela esquina matinal, onde corpo já se acostumou a seguir uma dada trilha para ir de encontro ao ponto, lá estava esta pessoa matutando pensamentos sórdidos sobre nada. Eu necessitava  ter o mundo, o passado, o presente e as eventualidades futuras no guarda-trapos. Necessitava a esse ser os brilhos encrostados no chão, a terra prometida da moda, o vermelho escaldante dos toc-toc. Aqui jazia o sentimento no qual nunca surtiu frutos. Nem foi regado. Plantado. Aqui jazia a rosa que já nasceu murcha, cujo sol teve como participação no ato dançante, a corte de secar o que nem sulco possuía. Mas, no mesmo terreno, surtia como quem deseja roubar a luz do brilhante, mesmo que exteriormente seja um Citrino, uma flor do campo imponente. Assim, essa alma era consumida em pé por um cosmo cifronizado.
Começa a chover. Não era a véspera do escarro, mas sim a véspera do inverno. Inferno para dois cidadãos guiados pela sina de carregar no pescoço a desgraça de uma vida desconstruída. Naquela chuva torrencial, as duas imagens não estavam a dançar. Não há apelo para o romantismo. Não havia tango e nenhum tipo de performance, apenas o rugir da fome. O barulho dos chinelos sobre as poças surtiam marteladas em minh ‘alma. Estava a observar aquelas duas criaturas a vagar pelo dilúvio congelante, uma trajando um vestidinho singelo regado de flores e o outro vestindo uma bermuda marrom rasgada que nada combinava, segundo a tendência de inverno, com a camisa azul piscina. Estavam procurando em meio ao caos como o urubu que procura carniça, algo mastigável.
A mulher saía como uma testemunha de Jeová batendo em porta em porta, mendigando pelo amor de Deus, um pedaço de pão. Um se arriscou na chuva, e ofereceu à senhora um saco de arroz e um quilo de feijão, porém, em outra tentativa, dois irmãos vizinhos, bateram a porta em sua fuça. O homem junto a ela arrastava pelo asfalto, um carrinho artesanal contendo todo quanto é tipo de material reciclável-sentimental. Eram dois seres humanos tentando sobreviver no mundo de feras. E eu era uma fera. A fera que consome, que mata, que fode, que chamusca nos vales verdes. A fera sistemática. Eu sou a onça, o extinto beija-flor, a tartaruga-de-pente, a garça branca, a arara vermelha, a garoupa e o mico. Eu sou o lobo do homem. Diante daquele espelho, fosco, os meus olhos cegos de mirra enxergaram pela primeira vez a minha veste marrom ornada com flores, sendo que a flor central da minha vestimenta era aquela rosa que nunca vingou. E assim, como um cego curado a partir da mistura homogênea de cuspe e terra, vi a minha sombra partir, sobre os confins do mundo das sucatas, onde nada reluz, além da esperança bruta que permanece virgem, na espera de ser esculpida.

Alegoria dos significantes

Angela Batista, 19. Tenho todos os anos do mundo, ao qual não sinto necessidade de revelar. Aprecio sorrir para um gato na rua, molhar-me junto com meus cadernos na chuva, rir quando é para chorar e sofrer quando tenho que sofrer. A arbitrariedade da vida me fascina, assim como o cheiro dos pés de laranjeiras. Sem rodeios, sem discurso poético, seja bem vindo, as minhas alegorias.

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