Escrever. Do meu verbo transcorrer para o papel alguma ideia ilustre, ou inventar um conto fantástico maravilhoso nos momentos de ócio. Talvez eu escreva sobre o colorido das asas da borboleta, ou sobre o cabelo encaracolado de Mabel, ou quem sabe sobre as aventuras promíscuas do meu cão. Escrevo para registrar o tempo que escorre pelo tique-taque ensurdecedor do relógio vermelho da minha sala de estar. Escrevo para idealizar minha musa poética que vaga pelo quarto 7 da minha mente. Escrevo, para salientar, as curvas, robustas, e vastas, do corpo, ensanguentado que se encontra na frente do mercado da esquina do inferno. Mas hoje, quero escrever sobre Deus e o Diabo no parque do sol.
Hoje eu vi milhares de pés vestidos de meias de terra. Observei pessoas de olhares perdidos, apontando para a montanha humana. Observei humanos agindo como lobos, prontos para atacar, habilitados para arrancar um pedaço da coxa alheia para defender o inexistente existente para tais. Hoje eu vi com os olhos que a chuva há de embaçar, detritos de sonhos que são esmagados todos os dias pelo esquecimento. Bem vindo a terra do sol.
Ah, como é triste o olhar perdido da sambista de cinco anos, que tenta encontrar um pão seco de esperança no meio do chorume escuro que escorre pelas valas das ruas...
Tantos bichos gordos de vermes. Revirando as latas na procura de amor, em procura de migalhas, na busca exacerbada de visão. Aqueles bichos invadiram a minha mente como vermes que escavam nossos tecidos na decomposição de um corpo qualquer. Ai que ressaca de realidade! Se Deus soubesse o quanto a mordida daqueles bichos dói, corrói, me remói, porém, aquela dentada animalesca me tirou do conforto.
Se eu pudesse... Se eu tivesse... Se eu... Se.
Aquele bicho no meio dos detritos correndo com seu filhote nos braços, não é um cão, nem um macaco, nem um gato. Nem um boi. Nem um vegetal. Aquele bicho, Manuel Bandeira, realmente, era um homem.